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Para compreender os oportunismos do fascismo

Toni Morrison, escritora norte-americana, analisou a capacidade do fascismo se infiltrar em qualquer estrutura. Com tentáculos patriarcais e racistas, ele domestica corpos — e visa eliminar aqueles que o ameaçam. Por isso é, hoje, nosso principal inimigo

OUTRASPALAVRAS
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Publicado 12/06/2020 às 19:47

Por CFEMEA | Ilustração: Stephanie Pollo

No último dia 15 de maio, um grupo de moradores desceu as ruas do Complexo do Alemão carregando cinco cadáveres enrolados em lençóis e papelão. Era o “saldo” de uma operação policial que havia começado com tiros e granadas às 6 horas da manhã e que deixou para trás os corpos e o desespero das famílias [1]. Três dias depois, em outro município do Estado do Rio, João Pedro, de 14 anos, foi atingido com um tiro nas costas. Ele estava em casa e foi morto por um policial, também durante uma operação. Em Recife, Mirtes Renata teve que ir trabalhar e levar o filho, que estava sem aulas desde o início da Pandemia. Ao descer com os cachorros da casa, a patroa não teve paciência com o menino de 5 anos. Deixou Miguel sozinho no elevador e ele caiu do nono andar. Começamos esse texto lembrando desses casos que ocorreram no último mês que, apesar de cruéis, acontecem cotidianamente no Brasil e no mundo. São casos de violações do direito ao exercício da maternidade pelas mulheres negras que, em meio a uma Pandemia mundial, perdem seus filhos para o racismo. A crise política que vivemos hoje nos une na luta contra o fascismo e não podemos perder de vista, jamais, que é um sistema racista e patriarcal.

Não tem direito trabalhista a ser resguardado, nem isolamento social para mulheres e negros em meio à emergência de saúde pública. A desqualificação cotidiana que o Governo Federal fez e segue fazendo da situação é baseada na ideia de que há mortes que não importam, que não são reconhecidas, que não precisam ser evitadas. Os corpos matáveis são pobres e negros [3]. O Genocídio da Juventude Negra está operando e às mulheres negras é negado que sejam mães, que possam criar seus filhos e filhas com o mínimo de segurança e liberdade.

Quando pesquisadores e pesquisadoras se referem ao fascismo e ao nazismo, restringem essa forma de governo à experiência italiana e alemã, respectivamente. No entanto, como afirma Toni Morrison, o fascismo continua presente, nos ameaçando, e sua genialidade está no fato de que ele pode se instalar em qualquer estrutura política, e qualquer cultura pode ser alimento para o seu crescimento [2]. Nesta perspectiva, para que uma nação seja vista como forte, sem fissuras, é preciso gerir o reconhecimento de determinadas existências e não de outras. Lésbicas, negros, travestis, transexuais, são alvo constante da violência, de maneiras cruéis, não só onde vivem e circulam, mas também no discurso político do presidente ou de seus aliados no Congresso e nos legislativos locais.

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No sistema fascista, os partidos políticos deixam de ter importância para a manutenção do poder ou do equilíbrio institucional e a política é caracterizada como intrinsecamente corrupta. Sua força independe de uma força partidária, pois há interesse em soluções fascistas em mais de um partido político. O suposto líder não corrupto, unicamente preocupado com o restabelecimento da ordem, é branco, patriarca e heterossexual. Usa a ideia de que os mais fortes sobreviverão, como se não existisse uma desigualdade social imensa determinando as condições de vida da população. A autocracia — isto é, a ideia de governar segundo suas próprias convicções — também é um elemento presente na prática política desses patriarcas colonizadores, ainda que mantenham em suposto funcionamento as demais instituições públicas de poder. No caso de Bolsonaro, não faltam pronunicamentos demonstrando a intenção de fechamento do Parlamento ou instâncias do poder judiciário.

Não à toa, no Brasil as elites políticas da Era Vargas viam com simpatia o governo fascista [4]. Em um país com o nosso passado colonial escravocrata, os ideais de pureza racial e de glorificação da cultura romana se combinavam perfeitamente — ainda que sejamos o resultado de uma miscigenação violenta, marcada pelo estupro colonial das mulheres negras escravizadas pelos senhores brancos — uma denúncia que sempre foi trazida pelas feministas negras e pouco escutada pelos defensores da harmonia da miscigenação entre raças. A nossa república não transformou os valores patriarcais e racistas coloniais no processo de transição do regime. Nosso atual governo federal também busca nesses regimes inspiração para a arquitetura do seu discurso e para a elaboração dos seus símbolos.

Para nós, feministas antirracistas, o governo de Jair Bolsonaro é fascista sim, pelo seu caráter violento, baseado no culto em torno de um líder e em ideais patriarcais e racistas de nação. Contra ele, fomos às ruas, mais uma vez. Como fomos ainda nas eleições, quando Bolsonaro era candidato, gritando em alto e bom som #ELENÃO. Naquele momento, as mulheres já ecoavam para a sociedade o quão fascista era essa candidatura. Na última semana, desafiamos a recomendação de ficar em casa para evitar a transmissão da covid-19, para denunciar que para o Governo, já está definido quem pode viver e quem pode morrer.

Fascismo e nazismo cultivam a ideia de que a sociedade estaria à beira de uma crise sem precedentes, que só poderia ser revertida por uma liderança forte, capaz de governar a partir de valores conservadores. Essa personalidade autoritária elabora um discurso anti-institucional, que clama pela ordem e a propagação da violência como meio para conquistá-la. Jair Bolsonaro, com sua ação limitada como deputado federal por cerca de 20 anos, se encaixou perfeitamente nesse papel. Como candidato foi visto como um “outsider”, alguém capaz de se opor ao petismo e à corrupção generalizada, ainda que essa imagem tenha sido construída com base em desinformação e mentiras. Sua formação no exército e sua defesa da polícia o colocou no campo militar, essencial para entendermos a arquitetura de poder da República Brasileira. Assim, se construiu a base para o resgate de símbolos nacionalistas, a ideia de que é preciso unir a nação e expurgar os inimigos, os que são considerados diferentes. Mais uma vez citando Toni Morrison, “O fascismo usa a retórica da ideologia, mas constitui de fato um fenômeno de marketing, a propaganda do poder”. Bolsonaro construiu uma imagem baseada na mais poderosa máquina de marketing moderno: a criação e propagação de fake news.

A violência, no fascismo, é um elemento criativo e regenerador do corpo político, como nos lembra Vladimir Safatle [5]. Ela é autorizada contra os grupos considerados “inimigos do povo”, como socialistas e comunistas eram vistos por Mussolini. Ou como os judeus, para Hitler. Mas não apenas sobre esses inimigos a violência e a anulação do outro-diferente se propaga. O pensamento totalitário não dialoga com vozes dissidentes, das mulheres, do povo negro, de pessoas trans, lésbicas e gays. A contenção e eliminação desses seres apontados como destoantes se faz necessária. O controle da reprodução e de nossos corpos se impõe. No caso das mulheres, estamos lidando com a tentativa de nos redomesticar, um retorno ou mesmo uma permanência nos lares, servis ao mando e julgo dos patriarcas.

A família monogâmica e heterossexual tem um papel fundamental na lógica fascista e as mulheres ficam submetidas ao poder patriarcal, material e simbolicamente [6]. Contribuindo, pelo trabalho de cuidado não remunerado, para a manutenção do poder econômico dos homens. O projeto fascista precisa que homens, à imagem e semelhança do seu principal líder político, estejam à frente de todas as posições de comando. Na ordem generificada fascista, a liberdade sexual é outro alvo de ataque, porque ameaça a ordem conservadora na qual o fascismo se espelha. A ameaça à ordem sexual gera medo, culpa, e pode justificar a punição divina. Por isso, o fascismo que hoje está no poder encontrou terreno fértil para a aliança com o fundamentalismo religioso e, consequentemente, é favorecido pelo domínio político, econômico e midiático desses grupos.

O fascismo é o nosso principal inimigo hoje. Por isso, queremos a cassação de Bolsonaro e Mourão [7]. Não só pelo Governo Federal, mas porque uma parcela da sociedade está mobilizada por e identificada com essa ideologia e continuará enquanto eles estiverem no poder. O fascismo italiano e o nazismo alemão não eram só formas de governo, tinham na sua base movimentos organizados. Movimentos esses que veem a sociedade como degenerada pelo reconhecimento de grupos sociais, étnicos e políticos diversos. As diferenças e os questionamentos que esses grupos geram seriam a origem do problema. Quem ameaça essa ordem, quem a questiona, está trabalhando contra a realização utópica de uma nação forte e desenvolvida.

A grande diferença do governo atual para as formas históricas do fascismo e do nazismo é o projeto econômico. Bolsonaro afasta de si a responsabilidade pela política econômica, dando poder ao ministro da economia que representa os interesses do mercado financeiro. Sua origem define seu projeto: ultra neoliberal, mais preocupado com as oscilações da bolsa do que o desenvolvimento das indústrias o investimento em tecnologias, a longo prazo. Oposto ao projeto econômico petista, o atual projeto promoveu o desmonte do que havia sido implementado. No lugar dos aliados nas mesmas condições, da tentativa de apoio mútuo entre países na mesma situação econômica, nos colocamos a serviço dos Estados Unidos e sua política desesperada contra a China.

Não estamos diante de um líder fascista que reclama para si o papel de liderança do Estado Nação. Estamos diante de um líder fascista que sintetiza os efeitos nefastos de uma política elitizada, negligente com as condições de vida da maior parte da sua população. Estamos diante de um governo subserviente ao mercado financeiro internacional, que quer soluções rápidas, eficazes, mas que se mantém com pouca capacidade de planejamento a longo prazo. Temos lideranças no Congresso a serviço desse mercado, que não derrubam o presidente, não porque não tem motivos, mas porque a instabilidade pode derrubar os lucros e prejudicar os investimentos.

A importância da pauta antirracista ter sido o mote para a unificação da luta antifascista está no reconhecimento de que aquilo que muitos chamam de “pautas identitárias” são hoje a luta pela vida, pelo reconhecimento das nossas existências. A situação da Pandemia revelou o quanto LGBTs, mulheres, negros e indígenas estão vulneráveis e são alvos reais de uma política de morte, em que não só se constrói uma ideia falsa de unidade nacional como se relega o projeto econômico ao interesse de investidores. A política de isolamento social deveria ser um direito, uma política pública promovida e viabilizada pelo Estado, mas se converteu novamente em um privilégio. Porque pobres, moradoras de favelas, não tem condições de se resguardar. Não tem atendimento adequado se ficarem doentes. Morrem mais e o Governo diz que não importa, importa que a economia funcione.

Nossa luta é uma só: pela vida digna, de todas as pessoas — sempre no reconhecimento de que não estamos mesmo no mesmo barco e que há vulnerabilidades que se agravam diante das desigualdades sociais, de raça/etnia e de gênero. Neste momento histórico do país, para conter o alastramento da pandemia e as mortes dela decorrentes, precisamos conter o bolsonarismo fascista. Nas últimas semanas, presenciamos uma movimentação autodeclarada antifascista nos meios de comunicação, nas redes sociais, e que assumiu os riscos de tomar as ruas em diversas cidades do país. É o povo indignado com a política genocida, racista e patriarcal perpetuada por esse governo, e cobrando a obrigação do Estado de atuar para salvar vidas ao invés de promover a morte. Em um país tão desigual como o Brasil, estruturalmente racista e machista, algumas vidas estão mais ameaçadas que outras, por isso, a luta para salvar as vidas negligenciadas, a luta para arrancar do poder um governo que prega a supremacia racial, a submissão das mulheres, o extermínio das identidades e sexualidades dissidentes, é necessariamente feminista e antirracista. Estamos caminhando, juntas, fortes e mobilizadas. Vamos avançar.


[1] Polícia Mata 13 no Alemão e Realiza Operações em Várias Favelas do Rio, em Meio à Pandemia: https://rioonwatch.org.br/?p=47503

[2] “Fascismo e racismo”, Toni Morrison (1995): https://www.revistaserrote.com.br/2019/08/racismo-e-fascismo-por-toni-morrison/

[3] Fascismo e Racismo: duas faces do mesmo ódio: https://www.brasildefato.com.br/2020/06/02/fascismo-e-racismo-duas-faces-do-mesmo-odio

[4] Vargas dança com o fascismo, Jornal de Brasília. https://jornaldebrasilia.com.br/60anos/vargas-danca-com-o-fascismo/

[5] O que é fascismo: https://revistacult.uol.com.br/home/o-que-e-fascismo/

[6] Fascismo: desafio para a política feminista. Guacira Oliveira e Carmen Silva. https://www.revistabravas.org/facismos-feminismos-por

[7] Campanha pela Cassação de Bolsonaro e Mourão. Plataforma dos movimentos sociais para a reforma do sistema político: https://reformapolitica.org.br/2020/05/15/nem-bolsonaro-nem-mourao-queremos-nova-eleicao/

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