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As previsões de Mujica sobre a pandemia: “não sei se chegamos aos limites do homem”

“Estamos fritos”, diz o ex-presidente uruguaio sobre o “bando de picaretas” que lideram os países do mundo em plena crise

Da Socialista Morena


Foto: Anadolu Agency / AFP

No último final de semana saiu no canal Filo News uma entrevista imperdível com o ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica. Mujica filosofou com o jornalista argentino Julio Leiva sobre o coronavírus e suas consequências e, ainda que diga que não pretende “fazer futurologia”, fez algumas previsões sobre o mundo que teremos pós-pandemia. O pior, diz, é que os líderes que temos atualmente não possuem nenhuma visão geopolítica para lidar com a crise. “Olha para o Trump… É de chorar. Estamos fritos”, diz.

Traduzimos os trechos mais importantes da entrevista para que vocês possam refletir. É profundo, é sagaz, é terno, é Mujica. Leiam e assistam.

– Os líderes mundiais são uma consequência da época em que estamos vivendo. E não te falo de esquerda nem de direita. Há uma tendência a ser um bando de picaretas. Por que não olham para mais adiante? A que vê mais longe é a velha Merkel, que está para sair. Estamos fritos. Não há gente que olhe geopoliticamente. Olha para o Trump… é de chorar. Quando a democracia elege um “coiso” desses estamos fritos. Seria melhor se fizéssemos por sorteio, talvez saísse algo melhor.

– Ainda não se pode fazer futurologia, mas vejo muitos perigos pela frente. (A pandemia de coronavírus) nos pode trazer uma epidemia de nacionalismo. O nacionalismo é uma coisa positiva para a liberdade dos pequenos, para a independência dos fracos, mas o nacionalismo extremo é terrível nas mãos das grande potências, porque é sempre às custas dos fracos.

– Haverá uma guerra entre os laboratórios para ver quem faz primeiro a vacina ou o remédio. Em toda crise há ganhadores e perdedores. Com certeza nesta crise haverá gente que vai explorar as leis do mercado a seu favor. Agora temos a crise da pandemia, mas depois teremos a crise das consequências. 3 bilhões e tanto de pessoas fazendo quarentena é muito para que não respingue em todos. Vamos ter crise de preços. Não há nada estável, está tudo em jogo.

– É tão bonita a vida que ao chegar ao final queria dizer-lhe que, apesar das dores, das quedas, que por favor sirva outra dose. Porque o importante na vida não é triunfar, é recomeçar cada vez que se cai. Por isso nada de frouxidão nem autopiedade. Mal tempo, boa cara, e vamos pra cima.

– Há uma disparada tecnológica terrível. Hoje te matam com o controle remoto, sem sequer colocar a cara, você não tem como reagir. Mataram a poesia. Morreu o espírito, morreu a alma. A ciência contemporânea está condenando o que chamamos de liberdade. Ou melhor: se por liberdade entende-se seguir seu desejo e suas inclinações, a liberdade existe; se por liberdade entende-se poder criar seus desejos e suas inclinações, a liberdade não existe. Este mundo tecnológico e de avanços científicos é pavoroso. Nos deixou sem religião, nos deixou sem alma, nos deixou sem espírito.

– Teríamos que pensar por todo o planeta e tomar medidas por todo o planeta. Inventamos bobagens para acumular e não atendemos necessidades básicas. Gastamos um montão de dinheiro em porcarias inúteis e não atendemos questões que são centrais. Mas os interesses imediatos são mais importantes do que as decisões globais de longo prazo. Não sei se chegamos aos limites do homem.

– Creio que vamos viver uma época relativamente convulsionada, com muito inconformismo por toda parte. Nesta etapa do capitalismo em que estamos, uma etapa consumista, essencialmente, uma cultura que é favorável à acumulação em grande escala, vamos sentir a agulha e o peso da crise econômica e isso vai cair sobre as expectativas subliminares de muita gente e vai produzir muito inconformismo. Pode haver saídas nacionalistas, cada um que se vire do seu jeito.

– Me parece que a presença da China vai seguir crescendo no mundo, gostemos ou não. Os países asiáticos irão cada vez pesar mais e cada vez menos a Europa, que está velha. Há mudanças em todas as relações de poder no mundo. E eu nunca vi as grandes potências, quando entram em decadência, não se sacudirem. Vai haver inconformismo. Mas estes são problemas das pessoas do futuro.

– Você não pode consertar o mundo, mas pode conseguir que a loucura deste mundo não te arraste. Trata de ter tempo para cultivar teus afetos. Trabalhe para viver, para ter o necessário, o imprescindível, mas deixe tempo para teus afetos, que é a única coisa que você vai levar. Você não pode mudar o mundo, mas pode conduzir sua vida, há uma independência que está aqui (no cérebro), essa nenhum governo pode roubar.

– Fale com esse que leva dentro. Galope território dentro de você. Você não precisa se comunicar, o que precisa é se comunicar com seu eu interior, esse que você leva sepultado e tampado. Busque em lições de sua própria história. Vale a pena perder um pouco de tempo nas pequenas coisas interiores. Se quiser colocar em termos difíceis: faça um pouco de introspecção durante o curso de sua vida, e verá quantas lições vai poder aprender que não lhe contam os livros. É bom deitar com a pança para cima, olhar o céu e pensar e recordar, não para se atormentar, mas para aprender.

Assista em https://www.youtube.com/watch?v=o3dtGp4t66w&feature=youtu.be  

 

fonte: https://www.geledes.org.br/as-previsoes-de-mujica-sobre-a-pandemia-nao-sei-se-chegamos-aos-limites-do-homem/

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