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Lava Jato Leaks: outra oportunidade para a “Comissão da Verdade da corrupção”

Assista: 

Ex-ministro do STJ critica conversas entre Moro e Dallagnol 

https://www.youtube.com/watch?v=5JN9BDTR_Vc&feature=share&fbclid=IwAR1vCOVxngrq8yy1ANq4Xb56aog7v1T3jOaQC-ek46p0g0V1C8l-ulvn70A 

 

Por Leopoldo Vieira -junho 11, 2019, 7:13 - Os Divergentes

Sergio Moro - Foto Orlando Brito

O vazamentos de mensagens trocadas por autoridades da Lava Jato pelo aplicativo russo Telegram, divulgados pelo jornal The Intercept, revelando coordenação política para prender o ex-presidente Lula e impedir a eleição de Fernando Haddad, além de otras cositas más, devem favorecer – mas não assegurar – a anulação da condenação do petista no caso Tríplex e fortalecer o processo que ele protocolou na ONU para ser reconhecido como preso político.

Um doce para o presidente Jair Bolsonaro, para retroalimentar a polarização com o lulismo e o petismo e espremer o Centrão e cia.

Usar o Telegram para este tipo de articulação está para Rússia como ter usado o Facebook para os Estados Unidos. Claro que a NSA leria “junto” as mensagens. Lembre-se, leitor e leitora, que o Intercept foi a base de divulgação da WikiLeaks no Brasil e esta, por sua vez, serviu de bunker da inteligência de Vladimir Putin para atrapalhar a eleição de Hillary Clinton contra Donald Trump, mas, no Brasil, o Intercept está associado à esquerda que é antiamericana, sobretudo a que denuncia o Democratic Party como uma espécie de retrato de Dorian Gray do “imperialismo”.

Já a “velha política” usará o caso para vergar o poder executivo ao esquema cargos-recursos-coalizão, quiçá por meio de uma CPI da Lava Jato liderada pela oposição de esquerda (porque a ala antigoverno do Centrão é a oposição de centro-direita), devidamente estimulada enquanto emissários não conseguirem arrancar o que desejam do governo: parodiando Cazuza, talões de cheque autografados por Bolsonaro.

Jair Bolsonaro

O que acontecerá em seguida, dependerá muito da reação do governo da nova direita, que deve usar Sergio Moro e Lava Jato como ativos para uma reação, em vez de serem vendidos para colher harmonia e escapar do cerco. Fontes da nova direita garantem a este colunista que os vazamentos não fizeram “cócegas” nos apoiadores da gestão e da Lava Jato. Na base de apoio ao presidente, o mais provável é que se considere válida a coordenação política da Lava Jato para impedir o retorno do PT ou a liberdade de Lula. É preciso saber o quanto esta compreensão alcançará não só o fã-clube fiel do capitão, mas o que somaram a ele contra os petistas vendo Bolsonaro como o “menos ruim”, como ele próprio se classificou.

Há tempos que Bolsonaro se prepara para uma travessia deste tipo, que consolidaria sua supremacia no espectro conservador ou o tornaria um “lame duck” (por meio do substitutivo à PEC 06|19 ou a resistência em autorizar o PLN 04|19) e, até mesmo, o deporia.

Manifestação a favor do presidente Lula e contra o ministro Sérgio Moro em frente ao Palácio Da Justiça. Foto Orlando Brito

Mas o desfecho deste mais quente escândalo só poderá ser a CPI da Lava Jato e a vitória do establishment político? Não necessariamente.

Em 10 de novembro 10 de 2018, publiquei aqui n’Os Divergentes um artigo em que aventei a oportunidade de uma “CPI da Corrupção”, proposta do falecido – e brilhante – jornalista Raymundo Costa, na coluna dele no Valor Econômico de 28/03/2017, chamada Pelados na rua e sem saída à vista. Costa elencou da seguinte forma as sugestões dele:

● “O modelo poderia ser o das comissões da verdade em países como a África do Sul (no Brasil ela foi boicotada pelos militares) ou mesmo o acordo de paz na Colômbia (…)”.
● “O primeiro passo seria o reconhecimento dos crimes praticados, propina ou caixa dois. Confissão necessariamente pública, em troca de uma pena mais branda que a prevista nos códigos criminais.”;
● “Punição complementar a ser aplicada ao político que confessar seus crimes em troca de uma sentença mais leve: a perda dos mandatos e da elegibilidade por determinado período. É um passo também obrigatório. Ninguém no país pode cumprir mais de 30 anos de cadeia. (…) Não é o banimento, como gostariam os que têm sangue na boca, mas retiraria o indigitado por um bom tempo da vida pública.”
● “Outro passo obrigatório seria a devolução do dinheiro roubado aos cofres públicos, seguindo-se o mesmo roteiro usado pelo Ministério Público Federal nos acordos celebrados em Curitiba, no caso da Lava-Jato. Confissão, punição e reparação seriam os termos de um acordo (…)”.

Procurador Deltan Dallangnol

Novamente, a oportunidade vem à tona, como numa das derradeiras cena de Avengers Ultimato, quando o Dr. Estranho revelou ao Homem-de-Ferro que se abrira a realidade alternativa correspondente a 1 em 14 milhões de possibilidades em que os Vingadores venceriam Thanos. Neste caso, representado por um establishment político que a sociedade rejeita e que não é mais capaz de se sustentar com as próprias pernas, senão ao largo dos protestos, sejam das ruas e redes da nova direita, sejam destas à esquerda.

fonte: https://osdivergentes.com.br/outras-palavras/lava-jato-leaks-outra-oportunidade-para-a-comissao-da-verdade-da-corrupcao/

 

Moro e o diabo de Al Pacino

 
Sérgio Moro. Foto Orlando Brito

O Advogado do Diabo, filme de 1997 dirigido por Taylor Hackford, tornou-se um dos grandes clássicos do cinema do final do século passado. No filme, o grande Al Pacino interpreta John Milton, um advogado que é ninguém menos que o próprio Satanás. Keanu Reaves é Kevin Lomax, um jovem ambicioso que resolve ir trabalhar no luxuosíssimo escritório de Milton, o nosso diabo. John Milton é um desses famosos juristas que costumamos ver em sessões do Supremo defendendo políticos e empresários enrolados. Cobra caríssimo para livrar corruptos de colarinho branco da cadeia.

 

Durante o filme, Kevin Lomax vai ascendendo no escritório do diabo, ao mesmo tempo em que seu trabalho além do limite do que é correto e ético vai pesando na sua consciência. Até que se rebela e se livra das tentações do patrão satânico. No final do filme, está defendendo uma pessoa pobre, vítima de injustiça, em uma causa humanitária. Ao final do julgamento, que vence, ele é abordado por um repórter, que começa a incensá-lo com o intuito de transformá-lo em herói. Como não tem sentido evitar spoiler de um filme com 20 anos de idade, e até porque é o que vem a seguir que importa comentar no momento, lá vai. O repórter é, na verdade, nosso velho diabo disfarçado. Depois que entrevista o personagem de Keanu Reaves, ele transmuta-se para Al Pacino, que se vira para a plateia e diz a frase que se tornou célebre: “A vaidade é meu pecado preferido”.

A troca de mensagens de Telegran entre o ministro da Justiça, Sergio Moro, e o procurador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, publicadas pelo site The Intercept, parecem reforçar a impressão do diabo de Al Pacino. A vaidade deve, de fato, ser o pecado preferido do demônio, dada a forma como ele coloca em risco mesmo o mais bem intencionado dos bem intencionados.

Muito vai se discutir daqui para a frente sobre os limites legais e éticos que tenham sido ultrapassados na troca de mensagens. E de outros trechos contendo novas e talvez mais graves ultrapassagens, dado que o site do jornalista americano Glenn Greenwald promete novas publicações. Independentemente, porém, do que venha a se concluir, o que as conversas já reforçam é a impressão de que o grande erro de Sérgio Moro na condução da Lava Jato parece ter sido mesmo sucumbir à vaidade.

No momento das conversas, Moro era ainda o juiz da Lava Jato às vésperas de fisgar seu peixe grande: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Havia, e há, uma série de investigações contra o ex-presidente, algumas com indícios mais graves, outras com indícios menores. O primeiro caso a chegar à conclusão era o do tríplex no Guarujá que, segundo a acusação, lhe teria sido dado como propina pela empreiteira OAS. Ainda que sobre o caso haja uma série de dúvidas e questionamentos, é preciso lembrar que a condenação de Lula neste momento já foi confirmada por outros juízes e instâncias superiores a Moro.

Mas as conversas mostram como a expectativa da condenação excitava Moro e Dallagnol. O juiz, então, orienta ações dos procuradores, divide estratégias. Trabalha em conjunto para que não houvesse reveses no caminho da iminente condenação. Estabelece-se entre juiz e acusador um grau absolutamente indevido de promiscuidade, muito distante da imparcialidade que um juiz deve buscar. E, um parênteses: deveria buscar também o jornalista, só para deixar marcado aqui um ponto para o qual este jornalista não se cansa de insistir.

Após a condenação de Lula, Moro galga novo degrau na escalada da submissão à vaidade. Aceita ser ministro da Justiça de Jair Bolsonaro. Além do sentido de Justiça, parece prevalecer em Moro o seu próprio projeto político, algo que ele almejava ao partir na sua cruzada contra a corrupção na Lava Jato. Ser ministro do Supremo? Presidente da República?

Procurador Dallagnol. Foto Orlando Brito

Difícil saber até que ponto Moro foi enredado pelo pecado da vaidade. Mas os clássicos da literatura ou do cinema que falam sobre pecados contam sempre que há um preço a se pagar em um eventual pacto com o diabo. E que todo o sucesso obtido com tal pacto acaba, ao final, em arrependimento dos Faustos e outros personagens dessas histórias. Moro disse ter aceito ser ministro porque considerava que, no Executivo, poderia aprofundar a aprovação e utilização das ferramentas de combate à corrupção. Desde que entrou no governo, porém, ele muito mais coleciona dissabores que vitórias.

Seu projeto anticrime patina no Congresso. Claramente não são suas e ele torce o nariz para propostas como a que flexibiliza a porte e a posse de armas nos termos em que foi feita ou a que passa a mão na cabeça dos motoristas infratores.

A vaidade cobra seu preço. A vaidade, dizia o diabo de Al Pacino, é o seu pecado preferido…

fonte: https://osdivergentes.com.br/os-divergentes/moro-e-o-diabo-de-al-pacino/

Lula deverá ser solto para Lava Jato não ir para o lixo

 
Foto Ricardo Stuckert/PT

As primeiras horas após a divulgação de um escândalo políticos são decisivas para aferir seu alcance, e os principais termômetros são as reações iniciais de seus protagonistas e da mídia. Ao emitir nota dando ênfase a um vazamento “criminoso” no site Intercept das comprometedoras conversas do então juiz Sergio Moro com o procurador Deltan Dallagnol e entre integrantes da força-tarefa da Lava Jato, o Ministério Público conseguiu, acima de tudo, dar veracidade a elas. Não disse – e não pode mais dizer – que não ocorreram, ainda que tenha questionado o vazamento ilegal e a retirada de contexto.

 
Sérgio Moro – Foto Orlando Brito

A nota confirmando indiretamente que as conversas existiram encorajou a mídia “mainstream” , sempre cética em apontar falhas na Lava Jato e claramente simpática a Moro, a entrar no assunto. Pesou nisso o fato de, na noite deste domingo, o assunto ter tomado conta das redes e sites alternativos. Ficou logo claro que haveria um preço a pagar em termos de credibilidade para quem não tocasse no tema.

A embocadura inicial dos maiores veículos da mídia foi cautelosa, dando em maior ou menor grau espaço prioritário ao hackeamento dos celulares de Moro e de procuradores da força-tarefa. A cobertura não deixou de fora, porém, o ponto principal das conversas – a quebra da ética e o decoro de juiz e procuradores que articulavam juntos atos da investigações e suas próprias ações.

Procurador Dallagnol. Foto Orlando Brito

Estão estabelecidas, portanto, as bases de um novo escândalo – que, a esta altura, dificilmente será varrido para debaixo do tapete. Sua primeira consequência política será dividir os holofotes e as energias do mundo político com o debate da reforma da Previdência na semana decisiva em que o relatório do deputado Samuel Moreira será apresentado. É bastante provável que o clima tumultuado acabe provocando atrasos na tramitação da PEC na Câmara.

Ainda é cedo para se aferir o grau do estrago na imagem do ex-juiz e hoje ministro Moro – que pode ir de um arranhão passageiro na reputação de quem almeja chegar ao STF (e até ao Planalto) à perda do cargo se a crise ameaçar chegar ao Planalto.

Cristiano Zanin, advogado de Lula. Foto Ricardo Stuckert/PT

Independentemente do que ocorrer do outro lado, porém, não restam dúvidas de que o ex-presidente Lula será o maior beneficiado pela divulgação das conversas. Ele é seu principal alvo. Ainda que não sejam aceitas judicialmente por sua origem, ou como elementos capazes de anular de imediato condenações da Lava Jato, elas criam um clima favorável à decisão de aceitar logo os recursos do ex-presidente para que ele, no mínimo, passe a cumprir sua pena em regime semi-aberto ou aberto.

A defesa de Lula irá, certamente, jogar todas as suas fichas na anulação do julgamento do triplex, e pode até conseguir isso mais à frente. Na avaliação de interlocutores do Judiciário, porém, a reação mais imediata dos tribunais superiores deverá ser a de mandar soltar o ex-presidente com base em recursos já em tramitação. Uma forma de botar água na fervura sem jogar a Lava Jato inteira no lixo – o que pode acontecer num longo e  vexaminoso julgamento da ilegitimidade de decisões combinadas entre Justiça e Ministério Público.

fonte: https://osdivergentes.com.br/helena-chagas/lula-devera-ser-solto-para-lava-jato-nao-ir-para-o-lixo/

 

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