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“Direitos Já”: Uma perigosa contradição

Ato uniu setores de direita e esquerda contra o governo Bolsonaro. Mas até que ponto são úteis Frentes com setores que defenderam o golpe e apoiam quase todas as contrarreformas propostas pelo governo?

OUTRASPALAVRAS

Publicado 12/09/2019 às 14:08 - Atualizado 12/09/2019 às 15:44

Por Almir Felitte | Imagem: Gabriel Galo

Na última semana, voltamos a ver o acirramento dos debates entre os setores democráticos sobre a formação de uma grande frente contra os ataques do Governo Bolsonaro ao país. A formação do grupo intitulado “Direitos Já!”, em um evento no TUCA, na cidade de São Paulo, recolocou o tema dos limites da política de conciliação mais uma vez no centro das mesas de discussão.

Com cara de “reunião de cúpulas” e uma clara falta de participação popular num evento que teve até lista seleta de convidados, o lançamento acabou não contando com algumas figuras importantes do campo democrático que haviam sido chamadas, mas, ironicamente, contou com a presença de outras personalidades que até ontem retiravam (e ainda retiram) direitos da população brasileira.

Não bastassem as próprias contradições do evento, o debate sobre toda essa questão acabou esquentando nas redes com a publicação de um artigo no The Intercept destinado a criticar a ausência do PT no lançamento e na própria frente. Talvez ainda mais contraditório que o próprio evento, o artigo conseguiu a proeza de criticar o PT, vejam só, pela falta de vontade conciliatória. Logo o PT, que há anos é justamente criticado por setores mais à esquerda por ter se entregado quase que completamente ao fisiologismo e à conciliação com o capital liberal.

Mas o artigo não para aí. Em nome dos “valores democráticos”, para o autor, vale até “engolir alguns nomes da centro-direita”. O autor só se esquece que os nomes do que ele chama de centro-direita (apelido que se deu pra direita liberal brasileira, que até concorda com a extrema-direita e tem as mesmas práticas, mas faz com um pouco de vergonha) estão, agora mesmo, em um momento de amplo desmonte dos direitos do povo brasileiro.

Como, por exemplo, o PSDB. Aliás, ainda tento entender aquele parágrafo do artigo que fala que é mentira que o evento é organizado pelo PSDB, mas que, no fim das contas, o evento é organizado pelo PSDB sim. Mas vale dizer que esse PSDB é o partido que, em 2014, perdeu as eleições nacionais e jurou tornar o país ingovernável, gritando “impeachment” dias após a eleição até consagrar o golpe em 2016.

O PSDB é também o partido que, na cidade de São Paulo (e em outras Brasil afora) tem pautado o Escola Sem Partido. O mesmo partido que, no Governo estadual de São Paulo, assumiu dando salvo-conduto pra polícia matar e agora censura livros de escolas que falem sobre questões de gênero. É também o PSDB, em Brasília, que acaba de ceder uma cadeira a Flávio Bolsonaro na CPI das Fake News e que vem apoiando integralmente todas as Reformas retiradoras de direitos apresentadas por Temer e Bolsonaro nos últimos anos.

Com todo o histórico, fica difícil entender quais direitos uma Frente como essa estaria pensando em defender. Afinal, o comportamento do PSDB dos últimos anos passa longe de ser “anti-bolsonarista”. O máximo que o partido parece querer, como um abutre, é a carcaça de um Governo Bolsonaro caso este venha a acabar antes da hora, ou mesmo em 2022, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, endossa todas as Reformas bolsonaristas.

Foquei, aqui, na questão do PSDB porque as maiores marcas contraditórias dessa frente eram as de garras tucanas, mas o evento contou com outras presenças que dispensam maiores comentários, como Kassab, Paulinho da Força e até membros do puxadinho do Governo Bolsonaro, o Partido NOVO.

Do outro lado, antes de discutir qualquer união, talvez este seja um momento para a esquerda brasileira pensar no que realmente deseja e em como deve agir neste momento tão crucial para a sociedade brasileira. A maior parte das siglas partidárias de esquerda com representação no Congresso, aliás, vem enfrentando dificuldades até mesmo para manter a fidelidade partidária de alguns de seus quadros, que insistentemente contradizem lideranças para votar ou agir em favor das medidas retiradoras de direitos impostas pela base do Governo Bolsonaro.

Aliás, pensando melhor, esta discussão já deveria estar superada, já que estes mesmos partidos haviam fechado uma coalisão programática no início deste ano. Por que não trabalhar nisso? Por que não corrigir os erros internos e fazer valer essa união inicial antes de se juntar a uma aventura política que mais parece uma plataforma eleitoral para a própria direita liberal se perpetuar em 2022? E, por fim, por que não olhar para além das instituições? Fora do TUCA, outros cerca de 220 milhões de brasileiros também querem decidir o futuro do Brasil.

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