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Lowy resgata a atualidade de Walter Benjamin

Ao lançar livro de ensaios, ele debate aspectos centrais do pensamento benjaminiano: o apreço pelo “comunismo primitivo” dos indígenas, o papel das cidades na luta anticapitalista e a Revolução como “freio de emergência” dos povos

OUTRASPALAVRAS

Publicado 10/12/2019 às 15:47

Michael Löwy, entrevistado por Paolo Colosso

MAIS:
Esta entrevista é o apêndice final do livro
A Revolução é o Freio de Emergência — ensaios sobre Walter Benjamin
De Michael Löwy, Editora Autonomia Literária, 160 págs

O “aviso de emergência” estrutura um eixo central de sua leitura, que é a crítica de Walter Benjamin ao progresso. Entretanto, em textos dos anos 1930, quando analisa transformações em técnicas e linguagens artísticas, Benjamin explora contradições desses avanços técnico-produtivos, identificando possibilidades e riscos para as artes. O “obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica” é o exemplo mais paradigmático, mas vale também para “Experiência e pobreza”. Como o senhor insere esses textos em sua leitura?

Para mim estes textos, e algum outro desta época (“O autor como produtor”), correspondem a um curto período (1933-35) em que Benjamin parece se aproximar do “marxismo produtivista” da União Soviética. É uma espécie de tentativa experimental, que logo será abandonada. Isto não quer dizer que estes escritos não tem interesse: o problema é que eles tendem a valorizar muito o progresso técnico-produtivo. Deste ponto de vista constituem um parêntese em sua obra, em contraste com seus escritos anteriores e também com seus escritos a partir de O narrador (1936). O mais importante destes escritos é sem duvida o ensaio sobre a obra de arte (1935), mas é um texto bastante ambivalente. Em certos momentos parece lamentar a perda da aura da obra de arte, este aspecto indefinível que remonta às origens cultuais da atividade artística; em outras passagens celebra, de forma bastante incondicional, o valor artístico e político do cinema, a arte não aurática por excelência (não possui a “obra original”). Por isto, o ensaio foi objeto de interpretações antagônicas, alguns o acusando de “nostálgico do passado”, senão “reacionário”, e outros de excessivamente otimistas em relação às novas técnicas. O melhor do texto me parece a conclusão: contra a estetização da politica dos fascistas, os revolucionários propõe a politização da arte !


É interessante ressaltar que mesmo durante esta época “marxista soviética” (com muitas aspas) Benjamin continua a se interessar por questões teológicas, como testemunha seu artigo sobre Franz Kafka (1934) e a longa correspondência com Gershom Scholem a propósito do messianismo do escritor de Praga.

A certa altura o senhor fala numa “reabertura da história” por Benjamin, o que nos remete à “história aberta” de Jeanne Marie Gagnebin, que é uma grande referência para os estudos benjaminianos no Brasil. Gostaria que o senhor retomasse o que há em comum e, em que medida, há tônicas distintas nas leituras de vocês?

Com efeito temos muito em comum, e o aspecto que você ressalta, a “historia aberta” é um deles. Nossas leituras da politica de Benjamin e de sua relação ao marxismo também são bastante próximas. Aprendemos muito um do outro. Nem sempre estou de acordo com Jeanne-Marie, mas tenho uma grande admiração pela profundidade e coerência de seus escritos sobre Benjamin.


Entre as “tônicas distintas” eu indicaria a questão do romantismo, e a valorização da pré-história. Em seu belo livro, História e narração em Walter Benjamin, ela me critica por atribuir um significado “arcaico” ao conceito de Urgeschichte em Benjamin, em função de uma leitura romântico/revolucionaria. Outro desacordo é o papel da teologia. Jeanne-Marie parece duvidar do caráter propriamente religioso da teologia de Benjamin, o que não me convence.

É evidente que a teoria da revolução em Benjamin prevê uma transformação social, que inclui uma transformação na estrutura de sensibilidade dos sujeitos, ou se quisermos dizer de outro modo, há aí uma teoria da experiência. Entretanto, seus textos se detém menos neste tópico. Há alguma razão para isso?

No meu trabalho, a questão da experiência em Benjamin aparece sobretudo em sua crítica ao capitalismo, responsável pelo declínio da experiência no mundo moderno. Não sei se a teoria da revolução em Benjamin implica uma transformação da experiência. A experiência que conta para ele é a da luta de classes, na qual se desenvolvem a confiança, a coragem, a intransigência e o humor das classes oprimidas. Evidentemente esta experiência é decisiva para a transformação revolucionaria.

Há leitores que ainda insistem num sobrepeso de sua leitura no saudosismo de Benjamin. Por que o senhor acha que isso ocorre e como costuma responder a esta objeção?

Não sei o que entende por “saudosismo”… Seria a nostalgia romântica pelo passado pré-moderno, a referência a um “paraíso perdido” situado na “aurora da historia”? Acho que é um aspecto importante do pensamento de Benjamin, sem o qual não se pode entender, por exemplo, a Tese IX sobre o “Anjo da Historia”, onde a tempestade do progresso nos afasta do paraíso. O tema não é exclusivo de Benjamin: o encontramos também em Marx e Engels, quando se referem, com grande admiração, ao “comunismo primitivo”. Engels contrasta a liberdade do indígena da Federação dos Iroqueses na América do Norte com a escravidão do proletário moderno. Seria “saudosismo” se Benjamin e Engels propusessem uma volta ao passado, uma regressão ao modo de vida das comunidades pré-modernas. Mas não se trata disso. A nostalgia do passado é investida no projeto utópico/revolucionário do futuro. No comunismo moderno voltarão a se encontrar a igualdade e a liberdade das sociedades primitivas, mas sob uma outra forma. Muitos marxistas e pessoas de esquerda ainda acreditam no progresso e veem com desconfiança qualquer referencia ao passado pré-capitalista, qualquer critica romântica à civilização burguesa em nome de valores pré-modernos. Sem duvidas eu dou mais peso a este aspecto na obra de Benjamin do que a maioria de seus interpretes ou leitores. Eu assumo este pecado.

A meu ver, um dos pontos mais interessantes de sua leitura sobre Benjamin é a relação deste com as grandes cidades, como lugar estratégico da luta de classes. Do ponto de vista do diagnóstico, a leitura deixa mais claro como a classe dominante se vale da produção de um espaço urbano, que se torna coerente com seus anseios e necessidades. Do ponto de vista das lutas, essa perspectiva mostra que mesmo a classe operária do século XIX não era apenas centrada na greve de fábrica, mas já se valia do espaço urbano em suas insurreições. Como o senhor chegou a esses insights e o que eles tem a dizer sobre o tempo-de-agora?


Lendo com atenção o que Benjamin escreve no Livro das Passagens sobre barricadas, haussmanização, etc, percebe-se claramente este momento. Outras leituras não ignoram este aspecto, mas geralmente não o interpretam sob o ângulo da luta de classes, mas de uma perspectiva urbanística, arquitetural, etc. Com efeito, me parece uma questão muito atual. Menos em termos de construção de barricadas (embora seja uma forma de luta que não se pode excluir!), mas pelo desenvolvimento da luta de classes no espaço urbano, em torno de questões como a habitação – os protestos contra as expulsões por dívida – os serviços públicos, o preço do transporte, a repressão policial, etc. A ocupação semi-insurrecional de praças públicas – Plaza del Sol em Madrid, Sintagma em Atenas, Wall Street em Nova York – é uma outra expressão espetacular desta utilização do espaço urbano por movimentos contestatários. Estes movimentos incluem as classes exploradas, mas também muitos jovens, donas de casa, pessoas de classe média, intelectuais, etc.

Em tempos regressivos, de encurtamento de horizontes, a aposta numa transformação radical tende a se tornar mais distante. Todavia, para as forças vivas que não se deixam bloquear, uma “revolução” parece ainda mais necessária. Que conselhos o senhor nos daria para lidar nesses momentos de crise civilizatória?

Walter Benjamin escreveu suas Teses Sobre o conceito de historia em 1940, num momento trágico: como escreveu Victor Serge, era meia-noite no século. A União Soviética tinha assinado um acordo com a Alemanha nazista, traindo a causa antifascista. O Terceiro Reich de Adolf Hitler tinha ocupado a França e a maioria dos países europeus. Ainda assim Benjamin conclui seu texto escrevendo: “Cada segundo é a porta estreita pela qual pode passar o Messias” – isto é a Revolução. Num artigo de 1929, Benjamin chamava os revolucionários a “organizar o pessimismo” – isto é, sem ilusões otimistas, organizar o combate para impedir o pessimum. Hoje em dia assistimos a uma impressionante onda reacionária, muitas vezes semifascista ou fascista, em grandes partes do mundo – incluindo, obviamente, o Brasil. Por outro lado, estamos confrontados com a crise ecológica, a mais séria crise civilizatória da historia humana. Walter Benjamin escreveu, discordando de Marx, que as revoluções não sao a locomotiva da historia mas a humanidade que puxa os freios de urgência. Isto me parece muito atual: somos todos passageiros de um trem suicida, a Civilização Capitalista Industrial Moderna, que corre, com rapidez crescente, em direção a um abismo: a mudança climática, a catástrofe ecológica. É urgente conseguirmos parar este trem: Revolução! É possível? Não sabemos. Mas como diz Brecht, quem luta pode perder; quem não luta já perdeu…

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fonte: https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/lowy-resgata-a-atualidade-de-walter-benjamin/

 

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