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As crianças que correm da política de terror de Wilson Witzel no Rio

Felipe Betim - El País - São Paulo

 
Crianças na Maré correm de disparos, nesta segunda-feira. MARÉ VIVE FACEBOOK

Já não é mais possível —não sei se foi algum dia— usar eufemismos para descrever a política de segurança do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. Ela é o que é: arbitrária, ilegal, criminosa e homicida. Se restavam dúvidas, no último sábado o governador entrou em um helicóptero da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) da Polícia Civil e sobrevoou uma comunidade de Angra dos Reis ao lado do prefeito do município. Um vídeo do momento foi publicado em seu perfil do Twitter. "Vamos botar fim na bandidagem em Angra dos Reis", dizia, enquanto um policial com fuzil em punho mirava uma área povoada da favela. 

Acontece que a TV Globo conseguiu outro trecho do vídeo em que o policial realiza múltiplos disparos contra uma área da mata e atinge uma tenda azul. Moradores disseram que se tratava de uma tenda evangélica frequentada por fieis, enquanto a polícia garantiu que havia sido montada pelo tráfico. Seja como for, o episódio é bastante revelador. Em primeiro lugar, confirma os relatos de moradores, nunca confirmados publicamente pela polícia, de que em operações do tipo os agentes atiram em direção ao solo, em áreas densamente povoadas, indiscriminadamente. Como ocorreu alguns dias depois, na última segunda-feira, no Complexo da Maré, um dos mais emblemáticos conjuntos de favela do Rio, em pleno horário escolar. Imagens mostraram crianças correndo pelas ruas, desviando dos disparos feitos a esmo de um helicóptero, enquanto outras esperavam encolhidas nas salas de aula e corredores do colégio o fim dos tiros. É a velha rotina de sempre nas comunidades. Oito rapazes que eram suspeitos de pertencer ao tráfico morreram em uma ação terrestre dos agentes.

Em segundo lugar, a cena de Apocalipse Now promovida por Witzel confirma que o governador está mais do que ciente do que acontece quando policiais entram em favelas ocupadas pelo tráfico com helicóptero e caveirão. Cabe ressaltar que o governador é o máximo responsável pelas polícias estaduais.

Foi durante outra ação na Maré com helicóptero e blindado que o menino Marcos Vinícius da Silva, de 14 anos, sem nenhuma participação com o tráfico, foi executado a caminho da escola durante uma ação da polícia. É verdade que a morte de Marcos Vinícius aconteceu quando o Rio estava sob intervenção federal e nada tem a ver com Witzel. Também é certo que o regime de terror ao qual moradores das favelas são submetidos cotidianamente não é uma novidade dos tempos bolsonaristas. Basta lembrar que, em 2007, após uma operação no Complexo do Alemão que resultou na morte de 19 pessoas, a maior chacina da década do Rio, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) irresponsavelmente apoiou a ação dizendo que não se combate o crime jogando "pétalas de rosa ou pó de arroz".

Assista em https://twitter.com/i/status/1124751621840416769

Twitter do governador-assassino

Mas se a brutalidade policial sempre foi, no mínimo, tolerada dentro das políticas de segurança pública, chegamos a uma situação em que agora ela é publicamente estimulada. Uma perigosa linha foi cruzada, graças em parte a essa negligência das autoridades frente ao abuso policial. E se antes os moradores e movimentos sociais das favelas conseguiam constranger autoridades e arrancar compromissos, hoje esse espaço parece cada vez menor.

Nada disso chega a ser surpresa se considerarmos que Witzel ganhou as eleições de 2018 prometendo "mirar na cabecinha" de criminosos armados e abatê-los. Um discurso que não se restringiu à campanha e se repete como se fosse um mantra, com resultados concretos. Foram registradas 434 mortes causadas por agentes de Estado nos três primeiros meses de Governo, segundo o Instituto de Segurança Pública do Rio, vinculado ao Governo do Estado. Um recorde absoluto para o primeiro trimestre desde que se iniciou a contagem deste índice, em 1998. São quase cinco mortes por dia causadas por policiais.

Depois que ao menos 15 pessoas suspeitas foram executadas nos morros da Coroa, Fallet-Fogueteiro e dos Prazeres em fevereiro, submetidas a longos minutos de torturas dentro de casas, segundo apontam os indícios, Witzel apareceu ao lado do secretário da Polícia Militar para respaldar "uma ação legítima da polícia para combater narcoterroristas". Dias depois, em uma cerimônia, disse que "qualquer atuação do PM, antes de qualquer discussão, é legítima". Na última segunda-feira, quando helicóptero e blindados entraram no Complexo da Maré, outros oito rapazes morreram. Segundo relatos de testemunhas para a Defensoria Pública, foram executados depois de se renderem, como acontecera em fevereiro. Moradores também relataram que os jovens já não ofereciam riscos, sendo que dois deles levantaram as mãos e disseram "perdi". Tiveram a seguinte resposta dos policiais: "Minha ordem é matar". Pelo visto, a doutrina Witzel também se estende aos que, mesmo já desarmados e sem oferecer risco a policiais, deveriam responder na Justiça pelos seus crimes.

Existe uma relação direta entre os dois casos. Em ambos policiais empoderados agiram com a certeza de impunidade e de que receberiam aprovação do chefe. Muitos argumentarão que, afinal, se tratavam de bandidos. Convém lembrar que as leis, a Constituição e os tratados internacionais que o Brasil assinou não são mero detalhe: proíbem qualquer tipo de pena de morte, execução sumária ou tortura, os dois últimos crimes de lesa-humanidade. Policiais são o braço armado do Estado e possuem poder de fogo, mas devem obedecer a rigorosos protocolos para usá-lo. Tudo isso deveria ser óbvio, como também o fato de que a violência por parte do Estado não termina com a violência de bandidos contra os cidadãos. Pelo contrário, só traz mais sofrimento e aumenta a insegurança.

Convém destacar também que a repressão que se faz ao crime organizado nas favelas não leva em conta, em momento nenhum, os moradores que nela vivem. A maioria negros e pobres, submetidos a um regime de terror cotidiano, com balas cruzando no céu, escolas e comércios fechados e a uma truculência policial que destrói casas e acaba com a vida também de crianças inocentes. Witzel só reforça essa dinâmica cruel, enquanto que as maiores apreensões de armas continuam sendo feitas em lugares distantes, em aeroportos e casas luxuosas, fruto de boas investigações policiais e sem a necessidade de troca de tiros. Como deve ser.

E onde estão o Ministério Público e o Judiciário estaduais para controlar as ações da polícia e se contrapor ao discurso do governador? Num passado recente a Defensoria Pública e a Procuradoria até entraram com uma ação para impedir o uso de aeronaves, mas a Justiça preferiu rejeitar de forma cínica a demanda. Coube agora a Procuradoria-Geral da República abrir uma investigação preliminar, fase anterior a abertura de inquérito, sobre a política do abate promovida pelo governador, após quatro representações feitas desde abril pelo Conselho Nacional dos Direitos Humanos, pelo deputado federal Marcelo Freixo (PSOL) e pela deputada estadual Renata Souza (PSOL).

Souza, que presidente a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia do Rio de Janeiro (ALERJ), também denunciou Witzel a ONU e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos) nesta semana. O documento destaca que a atual política de segurança pública "está cada vez mais militarizada com o uso de drones, helicópteros e carros blindados, além da técnica de snipers”, o que vem aumentando consideravelmente o tempo das operações, segundo o documento: se antes duravam em média 5 horas, agora duram até 14 horas podendo chegar a mais de 24 horas de tiroteio. Em resposta, Witzel pediu a cassação do mandato de Souza, algo que seu partido, o PSC, já solicitou na Assembleia.

Nesta semana, uma foto que rodava nas redes sociais dava a dimensão do retrocesso civilizacional que se vive. Na imagem aparece uma placa onde se pode ler "Escola. Não atire". Na denúncia levada à ONU e à OEA, não existe a possibilidade de que o governador seja processado pessoalmente por esses organismos. Já o Estado brasileiro poderia, por exemplo, receber advertências e até ser condenado a aplicar mudanças que garantam o fim dos abusos e da impunidade policial, entre outras medidas. É, no mínimo, um chamado para que o mundo saiba a escalada do terror promovida pelos novos dirigentes no poder.

 

MAIS INFORMAÇÕES

fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/05/08/opinion/1557268763_938547.amp.html?__twitter_impression=true&fbclid=IwAR1RJtYk99-6ueRJBEPGJn1f6W5uyWTiaFr8XSa5QtzrL7oC-bUyDWEuQQA


Os snipers criminosos de Witzel

Eles promoveram fuzilamentos aéreos com execuções que chocaram as organizações de direitos humanos mundo afora e espalharam pânico nas periferias. A escalada de violência oficial no Rio parece não ter fim

Crédito: Divulgação

COMO PRAÇA DE GUERRA O governador do Rio, Wilson Witzel (abaixo), coordenou pessoalmente do helicóptero da Polícia Civil uma operação em Angra dos Reis, no domingo 5. Um dia depois, sob as suas ordens, outra ação da polícia deixou crianças em pânico e oito mortos na comunidade da Maré. Ele vai seguir nessa barbárie? (Crédito: Divulgação)

Guilherme Sette - IstoÉ

O governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, tem uma mentalidade violenta e selvagem — e, a seu modo e à revelia da lei, impõe a pena de morte no Estado. A sua política é liberar a polícia para matar bandidos de forma indiscriminada, ainda que pessoas inocentes sejam atingidas. “Vamos botar fim na bandidagem aqui em Angra dos Reis, acabou!”, declarou, ao seu estilo, ao encerrar um curto vídeo que postou em suas redes sociais na tarde de domingo 5, logo após, a bordo de um helicóptero da polícia, exibir armamentos e apresentar a equipe da Coordenadoria de Recursos Especiais que comandavam missão na Costa Verde. Nessa ação, um dos policiais alvejou uma cabana azul, que a polícia disse se tratar de um ponto de observação de traficantes. Moradores afirmam, porém, que era uma construção improvisada e usada como banheiro por um grupo evangélico que atua no local e sobe a montanha para rezar.

 
Leonardo Alves

A fúria assassina de Witzel não tem limites. No dia seguinte, outra ação com helicóptero, dessa vez sem o governador na aeronave mas com seu aval, foi conduzida no Complexo da Maré, na zona norte do Rio. Nela, oito pessoas foram mortas e mais três ficaram feridas por disparos a esmo. O medo da população é tão grande que os helicópteros estão sendo chamados de “caveirão voador”, em referência ao rastro de morte que deixam para trás. Relatos de moradores afirmam que muitos tiros foram dados. Há vídeos compartilhados pelas redes sociais que comprovam isso. E mostram crianças da Escola Medalhista Olímpico Lucas Saatkamp, localizada na Maré, correndo desesperadas pelas ruas para escapar das balas e salvar suas vidas.

Os homicídios em intervenções policiais estão se acumulando na gestão Witzel, que demonstra apreço pela violência desnecessária. Na campanha eleitoral, ele afirmou que ordenaria que “snipers” atirassem na cabeça de qualquer pessoa que portasse um fuzil e está cumprindo a promessa macabra. Seus detestáveis snipers estão atuando impunemente. De acordo com dados do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, no primeiro trimestre foram registrados 434 homicídios em ações policiais no estado, recorde absoluto para o período entre janeiro e março. A marca anterior pertencia ao primeiro trimestre de 2018, quando foi ordenada a intervenção federal e aconteceram 368 homicídios.

Passou dos limites

Para Michel Misse, professor e coordenador na UFRJ do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana, os disparos feitos a partir de helicópteros são absurdos. “Isso é coisa de filme, esse veículo é para fazer observação, levantamento de informações e reconhecimento”, diz. De acordo com o professor, a presença de Witzel entre os agentes legitima ainda mais as execuções de suspeitos em ações da polícia, mas isso não é exatamente novidade no País: “São coisas que policiais fazem há 50 anos, a diferença é que agora uma autoridade declara que isso é correto”. A pesquisadora de violência institucional da ONG Justiça Global, Monique Cruz, afirma que o “caveirão voador” amplia o círculo de medo das favelas para outras regiões da cidade. Para ela, as políticas de segurança de Witzel são comparáveis à pena de morte, excluindo-se o componente jurídico: “O discurso público e a presença do governador em ações como essa legitimam que pessoas possam ser mortas — é uma autorização tácita do governo para execuções sumárias”.

Na terça-feira 7, a deputada Renata Souza (PSOL), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, protocolou na ONU uma denúncia contra o governador por causa do elevado número de homicídios policiais no estado. Ela já havia feito o mesmo para a Organização dos Estados Americanos (OEA) um dia antes. A ideia é que as organizações possam se pronunciar sobre o tema, pois, temos um governador que ordena a pena de morte no chão da favela sem que a Constituição Brasileira permita. A deputada Renata analisa que o governo deveria encarar a Segurança Pública de maneira mais racional e não com uma fúria assassina. Quanto aos tiros de helicóptero, a Secretaria de Segurança Pública prevê que os disparos podem ser feitos apenas em situações estritas de legítima defesa dos tripulantes e da população, algo que não pareceu ser o caso na descabida ação gravada por Wilson Witzel. Para o governador, pelo jeito, ter pessoas como alvo é divertimento de fim de semana.

“Faz parte de meu trabalho reconhecer essa situação e participar ativamente junto com a polícia daquilo que é a obrigação do governante” Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro

fonte: https://istoe.com.br/os-snipers-criminosos-de-witzel/?fbclid=IwAR2fk5bSJ2YaYlQW3bcauHWvN24CiqN2H2_K-S6_CP3dJ7ZQHVT7AcOKxms

 


 

Por RJ2

 

 
 
Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj denuncia governador à ONU

Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj denuncia governador à ONU

 

A presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia do Rio (Alerj), deputada Renata Souza (PSOL), denunciou o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), à Organização das Nações Unidas (ONU).

Renata enviou um documento para o organismo internacional nesta terça-feira (7). Ela já tinha encaminhado pedido semelhante para a Organização dos Estados Americanos (OEA).

A deputada pediu aos organismos que solicitem das autoridades brasileiras uma declaração a respeito dos fatos apresentados e tomem as providências.

O documento assinado pela parlamentar cita os disparos feitos por um policial do helicóptero onde o governador postou um vídeo, no último sábado (4), em Angra dos Reis, Costa Verde. A denúncia ressalta que o governador lidera pessoalmente uma política de massacre.

O texto afirma que a política de segurança pública de Witzel "está cada vez mais militarizada, com o uso de drones, helicópteros e carros blindados, além da técnica de snipers". 

"Um governante não pode naturalizar o número de mortes e contar como se fosse sucesso de uma operação”, diz Renata Souza.
 
Governador do RJ em operação no útlimo sábado (4) em Angra dos Reis — Foto: ReproduçãoGovernador do RJ em operação no útlimo sábado (4) em Angra dos Reis — Foto: Reprodução

Governador do RJ em operação no útlimo sábado (4) em Angra dos Reis — Foto: Reprodução

Em nota, Witzel afirma que não recebeu nenhuma notificação da ONU e que a operação em Angra — ocorrida no sábado (4) — foi de reconhecimento em áreas atingidas pela criminalidade. O governador alega também que não houve vítimas.

O governador sobrevoou o local e postou vídeos em redes sociais. Ao seu lado, aparece o prefeito de Angra, Fernando Jordão (MDB). Eles estavam no helicóptero e testemunharam quando os policiais atiraram.

Um dos locais atingidos pelos tiros, contam moradores, é uma tenda evangélica onde são realizados encontros religiosos. A polícia diz que o local era um ponto de reunião de traficantes.

 

"Aquela barraquinha ali foi criada pelos irmãos evangélicos. É usada como espécie de banheiro. Esse local aqui não tem ponto de tráfico, aqui não tem nada. É essa tranquilidade que você está vendo aqui", diz o morador.

 

O governador do RJ diz que a política de segurança é baseada em inteligência, investigação e aparelhamento das polícias civil e militar. Segundo ele, as operações contam com atiradores de alta precisão e são precedidas de planejamento técnico, conforme protocolo previsto em lei.

A norma foi regulamentada pela Secretaria de Segurança no ano passado e vale até hoje. O documento afirma que os tiros podem ser dados quando estritamente necessário para legítima defesa dos tripulantes e as rajadas são proibidas.

 

Witzel se hospeda em hotel de luxo

 

Depois da operação de sábado, o governador passou o fim de semana em Angra dos Reis com a família. Eles ficaram hospedados em um hotel de luxo na região que tem diárias que variam de R$ 1,6 mil a R$ 5,5 mil.

Witzel afirmou que pagou as despesas pessoais.

 

"As minhas despesas pessoais, eu paguei com o meu cartão de crédito, e o hotel fez a cessão da hospedagem pra que a minha família ali pudesse ficar naquele final de semana".

 

Mortes violentas quase dobram em Angra

 

Segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP), o número de mortes violentas praticamente dobrou de 2014 para 2018 em Angra dos Reis. Foram 128 contra 245 no ano passado.

Na manhã desta terça, houve nova operação com 100 agentes na cidade. Sete mandados de prisão foram cumpridos. Um homem preso em flagrante pelo crime de receptação de telefone celular e três carros roubados recuperados.

 

Assista em https://globoplay.globo.com/v/7607763/

 

fonte: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/05/07/witzel-e-denunciado-a-onu-por-presidente-da-comissao-de-direitos-humanos-da-alerj.ghtml

 

 

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