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Agricultoras tapa-buraco sonham ter marca de alimentos

Francisco Alves Pereira e Dinalva Bezerra recebem de R$ 0,05 a R$ 10 de motoristas que passam pela BR-155, no Pará

POR ROGER MARZOCHI E FERNANDO MARTINHO, DE MARABÁ (PA)

Brasil - Maio 2019 Viagem pela BR158 de Cuiabá a Marabá. Primeira etapa do Caminhos da Safra 2019, projeto da Revista Globo Rural. Fotos; Fernando Martinho. (Foto: Fernando Martinho)

Sob um sol forte, de calor úmido, as agricultoras Francisca Alves Pereira e Dinalva Bezerra colocam terra num carrinho no acostamento da BR-155, que liga Redenção a Marabá, no Pará. Protegidas por um amplo chapéu elas levam a terra até a estrada, tapando os imensos buracos da rodovia. “Em um grande buraco ontem colocamos 25 carrinhos de barro. E o carrinho parece que está se acabando de tanto serviço”, diz Francisca. As duas mulheres cruzaram o caminho da reportagem da Globo Rural, que passou pela região com Caminhos da Safraprojeto que percorre as principais rotas de escoamento da produção agrícola brasileira.

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Em troca do serviço de tapa-buracos, caminhoneiros pagam a elas de R$ 0,05 a R$ 10. “É um dinheiro que faz a diferença”, diz Francisca, com uma alegria inconfundível. Dinalva também vai avisando que isso não é sua profissão. Ela trabalha no cultivo de mandioca, com a qual faz farinha. “Meu principal sonho é ser uma agricultora reconhecida, porque eu amo roça”, afirma. Ela entrou no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e, em 2012, conquistou 49 hectares em uma área a 200 quilômetros de Marabá.

Brasil - Maio 2019 Viagem pela BR158 de Cuiabá a Marabá. Primeira etapa do Caminhos da Safra 2019, projeto da Revista Globo Rural. Fotos; Fernando Martinho. (Foto: Fernando Martinho)

“Não sei se vou viver da roça, mas eu tinha vontade que esse País desse valor ao trabalho rural, porque ele é muito digno e ele é o que é que mantém o Brasil em pé, porque todo mundo come e tudo vem da terra. A terra devia ser chamada mãe terra. Eu sou apaixonada por terra.”

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Tapar buracos lhe ajuda a juntar dinheiro, especialmente em uma época na qual ela estaria parada após a safra. E é um recurso que também vai ajudá-la a construir uma casa no seu sítio e a fazer melhorias na farinheira. A terra lá não é muito boa. É preciso plantar muito arroz para colher só um pouquinho, não dá feijão nem milho. Mas mandioca é danada e cresce lá. Em julho já vai dar para fazer farinha. E ela pretende se mudar para o sítio e conquistar outro sonho: criar a marca Nalvinha & Companhia, com CNPJ, pagando imposto, tudo certinho.

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“Os pais vã ir com as crianças lá no supermercado... ‘ei, ceis compra aquela marca alí que eu gosto dela, aquela farinha é boa, aquela mandioca é boa, aquela goma é a melhor’. Tenho um sonho de registrar e abrir um CNPJ. Eu queria viver da roça, criar meus filhos e netos só lá na roça”, diz Dinalva.

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