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6ª Marcha das Margaridas: Camponesas e indígenas denunciarão caráter antissocial do governo. Previsão é de 100 mil pessoas

Mais críticas com Jair Bolsonaro, mulheres marcham em Brasília.

O maior acontecimento nas ruas na última eleição foi o ato #EleNão convocado por mulheres contra Jair Bolsonaro. Diante de pesquisas sobre o tipo de conservadorismo bolsonarista, baseado na defesa da família tradicional, é possível que aquelas manifestações tenham na verdade ajudado o ex-capitão. O mau humor feminino com ele no governo não mudou, no entanto, é maior do que a média e dará as caras em Brasília.

A reportagem é de Andre Barrocal, publicada por CartaCapital, 09-08-2018.

Em 14 de agosto, haverá a 6a Marcha das Margaridas, passeata na Esplanada dos Ministérios organizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). A entidade espera 100 mil mulheres. Paralelamente, haverá uma jornada específica de mulheres indígenas, algo inédito, para a qual se estima a presença de duas mil, as quais se juntarão às margaridas dia 14.

As margaridas marcham a cada quatro anos desde 2000, e neste ano não houve nem haverá entrega de reivindicações ao governo. Elas acham inútil, como na época da primeira passeata, tempos de um neoliberalismo que hoje é praticado em doses cavalares pelo ministro da Economia, o banqueiro Paulo Guedes.

“É um momento gravíssimo de retrocessos para a classe trabalhadora, não vemos nenhum sentido em entregar uma pauta a esse governo”, diz a coordenadora-geral da marcha, a piauiense Maria José Morais, de 36 anos, secretária de mulheres da Contag.

Durante a marcha, as margaridas vão defender mais terra, água e agroecologia para si e suas famílias, entre outras coisas. E condenar o sucateamento de escolas públicas rurais, o feminicídio e a reforma da Previdência.

Recém aprovada pelos deputados e agora nas mãos dos senadores, a reforma, destinada a dificultar o acesso dos trabalhadores à aposentadoria, libera o INSS a pagar pensões por morte, em geral recebidas por mulheres, de valor inferior a um salário mínimo.

Até o fim de agosto, o governo tem de enviar ao Congresso o orçamento de 2020, e a tendência é que pela primeira vez em 15 anos não haja reajuste real do saláriomínimo. O esboço orçamento de 2020, a chamada LDO, prevê apenas reposição da inflação. O mínimo é uma referência salarial no mercado de trabalho e mais ainda no pagamento de empregadas domésticas, por exemplo.

Marcha das Margaridas acontece sempre perto de 12 de agosto. É a data do assassinato da líder camponesa Margarida Maria Alves, uma paraibana executada com tiro de escopeta no rosto em 1983, aos 50 anos, por encomenda de usineiros de cana cansados de tomar processos na Justiça por causa dela.

Neste ano, será encorpada por uma jornada específica de mulheres indígenas. Esta vai sexta-feira 9 de agosto, Dia Internacional dos Povos Indígenas, até a terça-feira 13. A exemplo das margaridas, não levarão pauta ao governo, por acharem inútil. Querem basicamente a volta da demarcação de reservas, algo que Bolsonaro, defensor de garimpeiros, fazendeiros e madeireiros, não admite.

Em junho, o presidente degolou o chefe da Funai, um general contrário ao desmonte do órgão responsável pelas demarcações. E já tentou duas vezes tirar a Funai do Ministério da Justiça e botá-la na pasta da Agricultura, sonho dos ruralistas. A primeira tentativa esbarrou no Congresso. A segunda, no Supremo Tribunal Federal (STF), em um julgamento de 10 a zero dia 2.

Essa marcha foi idealizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), entidade que até aqui tem conseguido impedir o governo de acabar com a Secretaria de Saúde Indígena, repartição do ministério da Saúde dedicada aos 900 mil indígenas brasileiros. Em julho, a Secretaria foi invadida em um protesto pelo fim da verba destinada ao transporte de pacientes da região sul. Detalhe: o órgão é comandado por uma indígena afinada com o presidente, Silvia Waiãpi.

A marcha das mulheres indígenas será numericamente modesta, cerca de 2 mil pessoas, mas ambiciosa. “Nosso objetivo é reafirmar essa resistência indígena como inimigo número 1 do governo Bolsonaro e fortalecer as mulheres como protagonistas”, diz a maranhense Sonia Guajajara, de 50 anos, líder da Apib.

O mau humor feminino com Bolsonaro é de maior do que a média. Entre as mulheres, a aprovação ao governo é de 29%, ante 33% no geral, enquanto a desaprovação é de 37%, quatro pontos acima da média, dados de uma pesquisa de julho do Datafolha.

Levantamentos de intenção de voto na campanha já mostravam uma bronca feminina maior com o ex-capitão, o que reduziu a margem de vitória dele. Dos 147 milhões de eleitores, as mulheres eram 52%, 7,5 milhões a mais do que os homens.

Presidente do PCdoB, partido de oposição, e vice-governadora de Pernambuco, Luciana Santos, engenheira de 53 anos, avalia que a indisposição feminina com Bolsonaro resulta do “rebaixamento das mulheres em vários sentidos” praticado por ele ao longo de sete mandatos de deputado.

Com ele no poder, afirma Luciana, as mulheres “não se sentem protegidas” de violência doméstica, por exemplo, vide a tentativa de facilitar presidencial o porte e a posse de armas, uma promessa de campanha feita sob medida para o núcleo duro do bolsonarismo, os valentões.

Para Luciana, “o bolsonarismo é uma força real, mas encolheu, e as manifestações de rua contaram para esse desgaste”. Em algum momento, diz, haverá reação de outras forças políticas.

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fonte: http://www.ihu.unisinos.br/591555-6a-marcha-das-margaridas-camponesas-e-indigenas-denunciarao-carater-antissocial-do-governo-previsao-e-de-100-mil-pessoas


 

Quem são as mulheres que participarão da Marcha das Margaridas

Agricultoras, marisqueiras e quilombolas de todo o país se mobilizam para defender políticas públicas em Brasília

A reportagem é de Mayara Paixão, publicada por Brasil de Fato, 09-08-2019.

Entre 13 e 14 de agosto, Brasília (DF) receberá a Marcha das Margaridas, maior ação conjunta de mulheres trabalhadoras da América Latina. Coordenada pela Confederação Nacional de Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag), suas 27 federações estaduais e mais de quatro mil sindicatos filiados, ela é construída em parceria com os movimentos feministas, centrais sindicais e organizações internacionais.

O nome da marcha homenageia Margarida Maria Alves, sindicalista paraibana assassinada em 1983, aos 50 anos, por um matador de aluguel a mando de fazendeiros da região. Em 2019, completam-se 36 anos de seu assassinato. Até hoje, nenhum acusado por sua morte foi condenado.

Assista em https://www.youtube.com/watch?v=n3S3FJFgZSE&feature=youtu.be  

Histórias que se cruzam

A pesca artesanal e a extração do maracujá do mato, fruta nativa do semiárido nordestino, são a base das atividades que geram renda para as 32 famílias assentadas do Projeto Agroextrativista Novo Jardim, localizado no pequeno município de Autuzes, estado do Amazonas. À frente dessas atividades, estão as mulheres, que também são as proprietárias dos lotes de terra.

Entre elas, Maria do Rosário Fernandes, 50 anos, conhece a fundo a história do local. Desde a conquista do assentamento, em 2006, ela acompanha as atividades e trabalha no extrativismo. Tamanha a relação com a região a fez ganhar o apelido carinhoso de Juma, em homenagem ao rio de mesmo nome que passa pelo município.

Ao contar sobre a realidade local, Juma não deixa de destacar os desafios cotidianos dessas mulheres, aprofundados pela desatenção do poder público. Escoar a produção se torna uma das tarefas mais difíceis em função das distâncias que separam as extrativistas do ponto de venda de suas mercadorias, a capital, Manaus.

A saúde, afirma a agricultora, é outro desafio. "Às vezes a mulher está dentro de uma comunidade, está grávida e precisa do socorro. Para chegar na sede do município, às vezes é um dia de viagem e não tem transporte. Ou um acidente com animais peçonhentos, como cobra, nos quais as pessoas morrem até chegar onde tem socorro”, relata.

A quase três mil quilômetros dali, na Bahia, a realidade da nordestina Lilian Santana, 26 anos, parece conversar com a de Juma. Apesar da longa distância que separa as regiões física e culturalmente, os desafios enfrentados em seus territórios liga a história e os desejos dessas duas mulheres.

Lilian é marisqueira em uma comunidade ribeirinha na Reserva Extrativista de Canavieiras, no litoral sul da Bahia. Aprendeu com a mãe e com a avó o ofício, e hoje ajuda a família com a pesca do siri e do aratu, caranguejo típico da região.

A atividade, desenvolvida principalmente pelas mulheres, sofre com desatenção do estado quando o assunto é a saúde, segundo critica a marisqueira.

“Muita exposição à temperatura baixa, com a água fria e a lama, faz com que as mulheres desenvolvam artrite, artrose, reumatismo. Tem mulheres que têm rachaduras nos pés, e não há tratamento. Isso fica com elas para o resto da vida. Elas têm que usar botas e algumas não têm condições de comprar, e se cortam nas ostras. Não há uma assistência de auxílio acidente", explica. "Algumas [marisqueiras] estão longe de saber os direitos que têm e que deveriam ser assistidos”.

Em breve, a amazonense Juma e a baiana Lilian estarão juntas na capital federal, Brasília (DF), participando da Marcha das Margaridas. A mobilização tem sido vista como oportunidade para as agricultoras levarem até Brasília as preocupações e reivindicarem seus direitos.

Enquanto a amazonense participa de sua terceira edição da marcha, a baiana LilianSantana vai pela primeira vez. A expectativa é de que 100 mil mulheres ocupem as ruas de Brasília nesta que é a sexta edição da Marcha das Margaridas. O caminho é longo e as dificuldades para financiar o transporte foram muitas, mas a vontade de estar lado a lado com as outras milhares de trabalhadoras das cinco regiões brasileiras é maior.

Aposentadoria

Além dos desafios de suas regiões, outra bandeira aparece nas preocupações que as duas trabalhadoras levam para a capital federal: a reforma da Previdência, nome comum para a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 6 de 2019, em tramitação no Congresso Federal.

Se aprovada, a principal pauta do governo de Jair Bolsonaro (PSL) aumentará de 60 para 62 anos a idade mínima de contribuição para aposentadoria das mulheres, além de estabelecer 20 anos de contribuição mínima, enquanto hoje são 15.

Quase 20 anos de história

Em sua sexta edição, a Marcha das Margaridas deste ano conta com o lema Margaridas na luta por um Brasil com soberania popular, democracia, justiça, igualdade e livre de violência.

A primeira edição ocorreu no ano de 2000 e contou com a participação de 20 mil mulheres. Como explica a coordenadora da Marcha, Mazé Morais, teve início ali uma mobilização nacional que até hoje organiza mulheres em suas localidades pelo país.

“É importante colocar que a Marcha não é só o momento em Brasília. Existe todo um processo de mobilização, formação e construção na base. É muito simbólico as mulheres marcharem onde está o centro do poder e dizerem quais as suas necessidades e os seus desejos”, afirma.

Segundo Mazé, que também é secretária de Mulheres da Contag, desde o início foram muitas as conquistas, como a titulação conjunta das terras para homens e mulheres e a campanha de documentação das trabalhadoras rurais.

Para a marcha deste ano, ela afirma que não será levada apenas uma pauta, mas um programa político. “São várias questões importantes que vamos propor: o direito à terra, à água, à agroecologia, educação, saúde, e contra todo tipo de violência, que está cada vez mais forte no país. É uma plataforma que pretende dizer para o Brasil e para o mundo qual é o modelo de sociedade que as margaridas defendem”, finaliza.

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Pela proteção e conservação da sociobiodiversidade e acesso aos bens comuns
"...Para conservar a sociobiodiversidade eu pratico a agroecologia para além dos sistemas de produção, pois sou o reflexo do lugar que vivo e reconheço a minha identidade de camponesa como guardiã desse ambiente que me acolhe”.
 
As vozes de milhares de Margaridas ecoarão em Brasília, nos dias 13 e 14 de agosto de 2019, para anunciar ao povo brasileiro uma ampla plataforma política com proposições sobre a construção de um Brasil que respeite os direitos das mulheres do campo, da floresta e das águas.
 
A plataforma é fruto de um amplo debate feito por mulheres desde as suas comunidades rurais, seus municípios e estados brasileiros, tendo como material orientador cadernos de debates que trazem os 10 eixos políticos da Marcha das Margaridas 2019.
 
Neste caminho formativo e de politização rumo à Marcha das Margaridas, abordaremos hoje o eixo “Pela proteção e conservação da sociobiodiversidade e acesso aos bens comuns”.
 
Para as mulheres do campo, da floresta e das águas, a natureza, a sociobiodiversidade e o conhecimento são patrimônios dos povos para o bem de toda a humanidade e devem ser defendidos da ação destrutiva do agronegócio e das grandes corporações que se apropriam e tratam os recursos naturais apenas como um negócio que gera lucros, a exemplo das mineradoras e dos grandes empreendimentos do agronegócio que exploram os recursos naturais e atingem diretamente os povos que vivem nos vários ecossistemas brasileiros (Amazônia, Cerrado, Caatinga, Pantanal, Mata Atlântica e Pampa).  
  
A sociobiodiversidade se refere a um espaço de vida, ao qual os povos tradicionais historicamente denominam como território. Assim, a demanda por território é mais ampla do que a demanda por terra, por que supõe afirmação de identidade, autogestão e controle dos recursos naturais. Então, quando se fala em luta, conquista ou resistência em relação ao território, refere-se aos meios de reprodução da vida, aos bens comuns – água, frutos nativos, plantas medicinais, área comum para os animais, áreas de pesca e caça. 
 
Guardiãs: as mulheres estão à frente dessa luta!
Mesmo diante das várias ameaças à sociobidiversidade e aos bens comuns, milhares de agricultoras, camponesas, indígenas, quilombolas, ribeirinhas, pescadoras seguem, em todo o Brasil, com práticas que expressam o saber acumulado sobre os ecossistemas, o patrimônio genético, as formas sustentáveis de produção e conservação das sementes, alimentos, plantas medicinais e domesticação das espécies.
 
Exemplo dessa resistência e luta das mulheres pela sociobiodiversidade e acesso aos bens comuns é protagonizado por Josefa Ataídes, do interior do Tocantins, que trabalha com o cultivo de ervas medicinais.
 
“Faço coleta seletiva dos resíduos orgânicos para compostagem da plantação de ervas medicinais e uso água com consciência fazendo uma irrigação com gotejamento. Em breve irei coletar água da chuva. Planto flores para atrair abelhas e passarinhos, pois acredito que ambiente equilibrado aumenta e facilita a produção. Para conservar a sociobiodiversidade eu pratico a agroecologia para além dos sistemas de produção, pois sou o reflexo do lugar que vivo e reconheço a minha identidade de camponesa como guardiã desse ambiente que me acolhe”, destaca Josefa.
 
 
Outro exemplo quem nos conta é a extrativista do Amazonas Maria do Rosário (Juma), que trabalha na sua propriedade com a produção de mandioca e de frutas nativas, entre elas o maracujá do mato, o açaí, a pajurá, a andiroba, o mari e o tucumã. 
 
“Acredito que o meu trabalho diário conservará as várias frutas nativas da região amazônica. Ao mesmo tempo preservará a mata nativa, pois tudo que precisamos encontramos na própria floresta. É a nossa prática de hoje que definirá o futuro da agricultura familiar, da flora, da fauna e dos povos da maior floresta tropical do mundo”, ressalta.  
 
 
Na preservação da sociobiodiversidade e do acesso aos bens comuns, mais de 300 mil quebradeiras de coco babaçu nos estados do Maranhão, Pará, Tocantins e Piauí, diariamente vivenciam o bem viver nos seus territórios espalhados em 80% das florestas de babaçuais do país. Uma tarefa nada fácil, frente à expansão do agronegócio, nesses territórios.  
 
“É cada vez maior a agressão à nossa cultura, às florestas de babaçus. Mas estamos vigilantes, somos guardiãs das florestas, e denunciamos essas infrações à nossa biodiversidade”, enfatiza Maria Alaídes de Sousa, coordenadora geral do Movimento Interestadual das Quebradeiras de  Coco Babaçu (MiqCB). 
 
 A atuação das mulheres através dos movimentos sociais e sindical vem gerando um bom resultado. Prova disso é o aumento no número de hectares de 18 para 25 milhões das florestas de babaçu nesses quatro estados, como aponta pesquisa do Projeto Cartografia Social da Amazônia. Com a conquista de mais áreas veio também a expansão da cadeia do babaçu. Hoje, são mais de 65 produtos extraídos do fruto.  Assim, a luta das quebradeiras tem garantido a preservação cultural da quebra de coco babaçu.
 
“Mostramos às jovens que, de um fruto nativo como o babaçu, retiramos a nossa resistência e bem viver, reforçamos a nossa luta e incentivamos às mulheres a continuarem na luta pela soberania alimentar, o acesso livre aos territórios e a autodeterminação dos povos”, compartilha a quebradeira de coco babaçu e liderança da Baixada Maranhense (Maranhão), Rosa Gregória.
 
 
“São histórias como as de Josefa, Maria do Rosário, Maria Alaíde e Rosa Gregória que somam força na proteção e conservação da sociobiodiversidade e acesso aos bens comuns em todo o Território Nacional. São essas mulheres que protagonizam a maior ação de massa da América Latina: a Marcha das Margaridas 2019, realizada desde 2000 pela CONTAG, Federações e Sindicatos filiados à Confederação, e com o apoio de várias organizações parceiras”, destaca a secretária de Meio Ambiente da CONTAG, Rosmarí Malheiros.
 
 
FONTE: Comunicação Marcha das Margaridas 2019 - Barack Fernandes e Yndara Vasques

 fonte: http://www.contag.org.br/index.php?modulo=portal&acao=interna&codpag=101&id=13643&nw=1&mt=1&in=1

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