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Angela Davis, ativista do feminismo negro, vem ao Brasil falar de direitos civis

Publicado no dia 16 de outubro de 2019.

Reportagem: Nathália Geraldo; Edição: Andressa Rovani; Fotografia: Divulgação/Boitempo

 

13 de outubro de 1970. Angela Yvonne Davis, 26, está subindo para o quarto de um hotel em Nova York quando sente que uma pessoa se aproxima pelas suas costas. É segurada pelo braço por um "homenzinho frágil", que lança a ela uma pergunta que ouviria repetidamente de outros homens naquela cena: "Você é Angela Davis?". De frente para a "terrível inimiga comunista negra", o agente do FBI queria a confirmação de que ela era, de fato, a mulher que figurava na lista das dez pessoas mais perigosas do mundo.

A prisão de Angela Davis projetou seu nome para o mundo. A mulher negra que se tornou filósofa, ativista, intelectual e, na época, também integrante do partido comunista, foi presa por "assassinato, sequestro e conspiração" e, com a detenção, anexou em sua ficha o rótulo de figura pública. Angela virou tema de música dos Rolling Stones, "Sweet Black Angel", e de John Lennon com Yoko Ono, "Angela". Foi dada como integrante do Black Panther Party, o Partido dos Panteras Negras. Se tornou a voz entre os feminismos negros. E, durante quase um ano e meio em que esteve na cadeia até ser inocentada, mobilizou gente de vários países pela campanha "Free Angela Davis" (Libertem Angela Davis). A prisão transformou Angela em uma referência para a cultura pop.

Sua trajetória foi escrita por ela mesma em "Angela Davis - Uma Autobiografia" e lançada originalmente nos Estados Unidos em 1974. A versão brasileira chegou neste ano ao Brasil pela Boitempo, editora que agora traz a autora ao país para dois depoimentos sobre o tema "A liberdade é uma luta constante". A participação de Davis acontece dentro do Seminário "Democracia em colapso?", no Sesc Pinheiros, no próximo dia 19, e na plateia externa do Auditório do Ibirapuera, no dia 21, em São Paulo. Ela também irá ao Rio de Janeiro, no dia 23, para conferência aberta.

Nascida em Birmingham, a maior cidade do estado norte-americano do Alabama, Angela Davis vem ao Brasil não apenas como uma feminista negra. Ela também é uma voz em defesa do abolicionismo penal, uma mulher negra que se articula politicamente ao longo dos anos para denunciar as opressões de raça, gênero, classe e sexualidade e suas intersecções. E, claro, uma personalidade "pop" da luta pelos direitos humanos, que fez com que os ingressos para ouvi-la se esgotassem em poucas horas.

 
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Ela se torna o rosto da esquerda no mundo

Nos anos 70, quando era perseguida pelo FBI, Angela era "o rosto da esquerda no mundo". A definição é da pesquisadora da teoria crítica da sociedade e da questão racial, doutoranda em antropologia social pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e coordenadora do Coletivo Di Jejê, Jaqueline Conceição. "Ela vive em um momento histórico em que os movimentos sociais, especialmente os ligados à comunidade negra, ganham visibilidade internacional, com lutas de libertação da África, da América Latina, das guerrilhas urbanas. E ela está lá: uma mulher negra em um país racista como os Estados Unidos, sendo o rosto da luta de liberdade", diz Jaqueline.

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'Libertem Angela Davis' ganha as ruas

É nesse contexto que "Libertem Angela Davis" (que dá origem ao documentário de mesmo nome, da diretora Shola Lync) ganha as ruas em vários lugares do mundo, ecoando em protestos por sua liberdade. O apelo da campanha também estampa camisetas e botons com a figura de Angela. Mesmo com tanta popularidade, Angela não deixa que a causa caia em personalismo, o que é uma marca de sua militância. Sua posição como prisioneira política e a condição das mulheres e homens - especialmente os negros - dentro do sistema carcerário norte-americano são reiteradamente lembradas por ela. Dentro da Casa de Detenção de Nova York, para onde foi levada após a prisão, Angela pediu a liberdade de outras prisioneiras em resposta ao coro de uma multidão que vinha das ruas.

As faces de Angela

 
  • O símbolo

    "Você imagina ter 24 anos e passar a ser vista como uma das pessoas mais perigosas dos EUA? Para sobreviver, ela teve que compreender que aquilo não era contra ela, mas contra a imagem que ela representava. Angela tinha clareza revolucionária", diz a pesquisadora Jaqueline Conceição.

  • A ativista

    "Após a libertação, ela continua militando, faz visitas internacionais, como à União Soviética, elabora a autobiografia. Leciona na Universidade de Santa Cruz, participa de coalisões de mulheres de cor. Nunca deixou de atuar", diz a historiadora Raquel Barreto.

  • A anticapitalista

    "Vivemos aqui o que os EUA viveram nos anos 80, que é começar a pensar feminismo negro. Fazemos isso de uma perspectiva que é politicamente liberal, centrada no indivíduo. Mas, tudo que ela escreve é contra esse discurso. Ela quer antes de tudo a queda do capitalismo. Ela sempre foi comunista", diz a historiadora Suzane Jardim.

  • A abolicionista prisional

    "Prisões são lugares insensatos. Insensatos no sentido de que nada é pensado por suas administrações; não há solução de problemas nem a avaliação racional de qualquer situação ligeiramente diferente da norma", diz Angela Davis em livro.

 

Embora os gritos de "Libertem Angela" me enchessem de entusiasmo, eu estava preocupada que, em excesso, eles poderiam me separar do resto de minhas irmãs. Gritei, um por um, o nome de todas as irmãs do andar que participaram do protesto. "Libertem Vernel! Libertem Helen! Libertem Amy! Libertem Joann!". Fiquei rouca por uma semana.

Angela Davis, em sua autobiografia

Assista ao trailer do documentário "Libertem Angela Davis"

 
 
 

"Liberdade é uma luta constante"

 

Angela só tem a projeção mundial que tem em sua militância porque esteve no front em vários momentos de sua vida: além de ter sido presa jovem, passou por perseguição política e pela volta do conservadorismo norte-americano na era Reagan. Vale dizer que, apesar de ser historicamente definida como uma Pantera Negra, Angela não chegou a ser membro oficial do Partido.

Ela foi convidada para promover curso de formação política por menos de um ano, e afirma, na autobiografia, que tinha "forte ligação" com os Panteras, mas saiu da organização por desacordos ideológicos e permaneceu apenas no Partido Comunista.

É com essa bagagem de "luta constante pela liberdade", conquistada nos anos 60 nos Estados Unidos, e tema presente hoje no Brasil, que a ativista chega ao país.

"E, agora, ela passa pela conjuntura da ascensão do Trump, abertamente supremacista branco, e do presidente do Brasil, que já sabemos o que pensa sobre os afro-brasileiros e os povos originários. São governos com certo apelo à performance de masculinidade e de branquitude", explica Raquel.

"E, aqui, vivemos características antidemocráticas, colocadas em prática pelo Estado, apesar da legalidade das instituições. É um momento de uma onda conservadora no país, e a gente sabe o quanto têm sido reforçadas as ideias de relações de gênero, de subordinação das mulheres, de homofobia e da negação da desigualdade racial brasileira", explica a pesquisadora.

"Nesse contexto, ter uma mulher como Angela Davis, que constrói militância e produção teórica sobre esses temas, e na hora que temos refletido sobre democracia, liberdades individuais e políticas, só reforça a ideia de que temos que disputar narrativas sobre isso."

A luta de Angela para resolver os problemas do povo negro e das pessoas brancas exploradas passava, como ela mesmo define, pelo socialismo utópico. E é sua filiação ao Partido Comunista (especificamente ao coletivo Che-Lumumba, a célula negra do partido em Los Angeles), em 1968, que marca um dos momentos mais emblemáticos de sua carreira acadêmica.

Isso porque no momento em que ela se autoproclamou comunista, a UCLA (Universidade da Califórnia) tentou impedi-la de lecionar como professora assistente no departamento de Filosofia, a pedido do governador Ronald Reagan. Depois de um movimento de docentes, alunos e trabalhadores da instituição pela liberdade acadêmica de Angela, a aula inaugural do curso precisou ser feita em um anfiteatro para mais de 2.000 pessoas.

Não se pode desprezar, assim, a capacidade de articulação política no discurso intelectual de Angela.

Como militante dos direitos civis, ela sempre se associou a movimentos de liberdade. Um exemplo é a campanha pelos irmãos Soledad (Fleeta Drumgo, John Clutchette e George Jackson, por quem Davis revela, em cartas, também sentir um "compromisso pessoal"). Soledad é em referência ao nome da prisão em que o trio foi acusado de assassinar um agente penitenciário.

George havia chegado à cadeia dez anos antes, por ter estado no carro de um conhecido quando o dono do veículo roubou setenta dólares de um posto de gasolina. Ainda que ele alegasse não ter nada a ver com o episódio, foi condenado à pena mínima de um ano e à máxima, prisão perpétua. Um Comitê de Defesa aos Irmãos Soledad foi criado e Angela participou ativamente.

 
 

 

Comunista "palatável"? 

Essencialmente, Angela adota uma postura anticapitalista em todas as suas atividades de militância. A historiadora especialista em Davis e que também assina o prefácio à edição brasileira de "Uma autobiografia", Raquel Barreto explica que, por vezes, essa faceta de Angela é esquecida na discussão pública sobre sua obra para que ela se torne uma figura mais "palatável" -- mesmo processo que se dá a respeito de seu pensamento sobre o feminismo negro.

"É pouco comentado no Brasil que ela militou no Partido Comunista por mais de três décadas e que compôs chapa duas vezes [1980 e 1984], na vice-presidência dos Estados Unidos, por exemplo", afirma.

Se deixado de lado em análises de sua obra e vida, o tom político da ativista sempre a guiou pela luta contra a opressão da população negra e dos trabalhadores. Uma escolha que ela fez, inclusive, ao escrever sua autobiografia.

"Não escrevi realmente a meu respeito", avisa na introdução à segunda edição da versão brasileira. "Não mensurei os eventos de minha própria vida de acordo com sua possível importância pessoal. Em vez disso, tentei utilizar o gênero para avaliar minha vida de acordo com que eu considerava ser o significado político de minhas experiências. O método político de mensuração derivava de meu trabalho como ativista no movimento negro e como membro do Partido Comunista."

 

Para mim, a revolução nunca foi uma 'coisa temporária a se fazer'. Não era um clube da moda com jargões recém-criados nem um novo tipo de vida social que se tornava emocionante pelo risco. Revolução é uma coisa séria, a coisa mais séria na vida de uma pessoa revolucionária. Quando alguém se compromete com a luta, deve ser para sempre

Angela Davis, em "Uma autobiografia"

George Louis/Wikimedia Commons
George Louis/Wikimedia Commons

 

Feminista além da "lacração"

Com os movimentos de libertação da mulher e de igualdade de gênero cada vez mais em pauta no Brasil, Angela Davis se tornou um ícone resgatado por feministas, especialmente quando o tema é empoderamento de mulheres negras.

Segundo as estudiosas do pensamento de Angela, no entanto, a luta contra a opressão feminina dentro do capitalismo é ainda mais ampla e apenas uma das vertentes que a militante defende.

Para Raquel, uma visão limitada ignora que Angela é uma ativista anticapitalista. "Nos feminismos negros, no plural, porque que não tem uma concepção só, ela define uma transformação radical (não nas consequências nem no sentido de intolerância) na raiz do problema: abolir a sociedade de classe, o racismo estrutural e o patriarcado estrutural".

Para a pesquisadora, Davis é menos "lacração" do que se supõe em um primeiro contato com sua figura. "A forma como ela entra na cultura pop, por conta do cabelo e da estética, a transforma mais em um ícone da lacração do que em uma filósofa que tem o comprometimento com a transformação da sociedade. Mas a produção dela quer discutir relações estruturais da sociedade."

Ninguém de fora

Isso significa que raça e gênero, no feminismo de Davis, são analisados de forma global e comunitária. "Ela não exclui os homens negros, porque tudo é visto de forma interseccional. Isso porque, na experiência, raça pode inferiorizar gênero. Um exemplo mais contundente disso é o mercado de trabalho no Brasil: mulheres brancas ganham mais que homens negros", diz Raquel.

"E o próprio compromisso dela com a luta anticarcerária é com a comunidade negra, já que homens negros são mais visados. Há uma superpopulação de homens negros nas cadeias".

Jaqueline explica ainda que Angela tem uma pauta muito cara a ela: o abolicionismo penal. "Aqui, a gente trata ela como uma feminista negra, mas ela não é uma feminista negra. Ela se coloca no lugar de uma militante pelo abolicionismo penal, especialmente no momento de construções teóricas nos EUA e em que há uma efervescência das pautas identitárias. Tanto é que apenas no começo dos anos 80 é que ela escreve 'Mulher, raça e classe' (1981). "Mulher, cultura e política", outro livro da ativista, vem em 1989.

Columbia GSAPP / Editora Boitempo Columbia GSAPP / Editora Boitempo

Uma mulher pelo abolicionismo penal

 

Não só sua experiência na prisão, sobre a qual fala das privações mínimas, como ter acesso restrito à cantina, e das condições sub-humanas — Angela chegou a ter fungos na pele por usar calcinhas não esterilizadas oferecidas pela prisão em Nova York —, fez com que a militante se tornasse uma voz pela eliminação das cadeias. Toda sua construção teórica, carreira política e vida pública, define a pesquisadora Jaqueline, se dá na discussão do encarceramento em massa norte-americano.

O abolicionismo penal, como explica a historiadora e militante abolicionista Suzane Jardim, é uma perspectiva que critica o sistema carcerário que se diz um mecanismo de extensão de vida, mas é de contenção. Para abolicionistas, colocar pessoas atrás das grades gera estigmatização de grupos e não tem impacto restaurativo, só punitivo. A ideia é acabar com as prisões com base em um trabalho de cidadania, coisa que, na opinião de Suzane, a prisão não faz.

"O centro da crítica de Davis quanto à questão prisional é que ela é um mecanismo racista. Ela acredita que o encarceramento foi expandido nos Estados Unidos para fazer a gestão dos corpos negros que foram libertos com o fim da escravidão."

Assim, a ideia de subalternidade dos negros se perpetua. "Para ela, a visão de que um crime é uma desculpa para prisão permite que uma pessoa desconfie de um negro e, por isso, pode atirar nesse negro. É quando ouvimos: 'Ah, desculpa, mas eu achei que fosse um ladrão ou que ele fosse me violentar", diz a especialista.

Ou seja, a lógica de que "todo bandido é maléfico, não tem alma" — ou a do "bandido bom é bandido morto" — foi elaborada, na visão das militantes abolicionistas, para fazer a manutenção das mortes sistêmicas dessa população.

Em sua fala sobre o tema, diz Suzane, Angela critica como determinadas políticas econômicas que geram miséria, como o neoliberalismo norte-americano, aumentam a população carcerária.

"A política antidrogas também foi usada para encarcerar e vigiar comunidades negras. Trazendo para o Brasil, também temos política prisional que se foca em periferias, favelas e comunidades de maioria negra e uma lógica de guerra que acaba tendo vítimas fatais que são racializadas".

Ativista soft

Suzane reitera que não associar Angela a essa pauta faz parte de uma estratégia de torná-la um ícone vendável, assim como aconteceu com outras lideranças negras, como Malcom X e Martin Luther King. "Em seu livro 'A liberdade é uma luta constante', ela mesma fala como essas figuras tiveram seus discursos radicais apagados para se tornarem pôster, figura de caneca", analisa.

"Militantes que têm uma radicalidade de discurso são higienizados para serem mais vendáveis. Só que meu contato com Angela Davis foi pela literatura da questão prisional. Mas a referenciar, especialmente no atual momento político, como 'a militante comunista que quer uma mudança social de base incluindo o fim das prisões e que não tenha mais nenhum bandido preso' não vende, não é bonito."

 

fonte: https://www.uol.com.br/universa/reportagens-especiais/angela-davis/index.htm#uma-mulher-pelo-abolicionismo-penal

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