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‘A gente não pode esperar’: três mães que desobedeceram a lei para tratar os filhos com maconha medicinal


Jeane diz que a filha, Eduarda, teve grande melhora após passar a usar o óleo derivado do canabidiol | Foto: Giulia Cassol/Sul21

Luís Eduardo Gomes - Sul 21

Eduarda nasceu com microcefalia e paralisia cerebral devido a uma toxoplasmose que a mãe, Jeane Cristina da Silva, contraiu durante a gravidez. Os problemas de saúde desenvolvidos nos primeiros meses fizeram com que contraísse involuntariamente a mão, especialmente do lado direito. Também não tinha reflexos. Quando Jeane chamava, a menina não respondia. A situação foi ainda agravada no final de 2018, quando ela teve convulsão e acabou perdendo todo o progresso que conseguira com o tratamento nos primeiros meses de vida.

 

Jeane diz que ficou sabendo do canabidiol — ou CBD, substância química derivada da cannabis que tem efeitos medicinais — ao assistir a uma reportagem na televisão sobre uma menina de Canoas que melhorou após iniciar tratamento com o óleo. A família começou a pesquisar e buscar informações se poderia ser usado no caso de Eduarda, na internet, em documentários, na televisão, etc. Jeane diz que passou várias madrugadas lendo, pesquisando e procurando médicos que pudessem passar mais informações sobre o canabidiol.

Ela diz que, anteriormente, a família só ouvia falar da maconha como sendo algo “muito ruim”. “A minha mãe, que viu a reportagem também, me ligou e disse: ‘Mana, tu viu?’. Eu até disse para a minha mãe: ‘Eu acho que não é para o caso da mana’. Mas fui procurar me informar. O que a gente podia saber do óleo, a gente procurou saber e se informar”, conta.

Jeane procurou o neurologista de Eduarda e o questionou sobre a possibilidade de uso do canabidiol, mas ele não foi favorável. Segundo Jeane, porque não haveria provas científicas comprovando a eficácia para o caso da menina. Já a pediatra estimulou a procura por mais informações. Moradores de André da Rocha, cidade localizada a cerca de 200 km da Capital, inicialmente procuraram médicos em Porto Alegre, mas acabaram encontrando ajuda em uma associação de Florianópolis.

Com o canabidiol, Eduarda passou a responder a reflexos que antes ignorava | Foto: Giulia Cassol/Sul21

Sediada em Florianópolis, a Santa Cannabis tem como foco orientar pessoas e famílias das regiões Sul e Sudeste interessadas no tratamento com canabidiol e ajudar no acesso. A entidade surgiu a partir de um caso envolvendo um familiar de seu presidente, Pedro Sabaciauskis, cuja avó de 83 anos sofre de Mal de Parkinson. Ao saber que o canabidiol poderia amenizar os efeitos da doença, ele procurou uma associação que atua em Fortaleza e que trabalhava na base da desobediência civil, isto é, desafiando a lei.

“No primeiro dia, a gente já viu que houve uma melhora. No terceiro dia, quando eu voltei a vê-la, já veio caminhando e abriu a porta. Uma coisa inédita nos últimos anos, porque ela não fazia isso. Depois de uma semana, a voz dela, que era travada por causa do Parkinson, começou a voltar. Hoje a minha avó está falando super bem, cozinha, caminha, voltou a ter qualidade de vida”, conta.

Diante das melhoras da avó, alguns amigos sugeriram a ele a ideia de montar a associação para facilitar o acesso de outras famílias. Diante do preço impeditivo do remédio importado, decidiram também partir para a desobediência civil. Se a pessoa pode pagar, eles auxiliam no processo de importação. As pessoas que não podem pagar são encaminhadas para o jurídico da entidade, que auxilia na obtenção de um habeas corpus individual para evitar que sejam presas em caso de plantarem a maconha para produzir o canabidiol em óleo em casa. Outra opção é entrar com uma ação civil pública de plantio coletivo, que é o que a Santa Cannabis está buscando no momento. Segundo ele, a Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace), de João Pessoa, é a única entidade do Brasil que já obteve autorização judicial para plantar, produzir e fornecer medicamentos a base de cannabis para 3 mil pacientes das regiões Norte e Nordeste do Brasil.

“Hoje, a gente ajuda mais de 300 pacientes. Já temos 60 autorizações, de diversos estados, de juízes que concederam autorização para as pessoas tratarem a doença com remédio plantado em casa. Nesse modelo, ela não fica refém da indústria farmacêutica e tem um remédio que auxilia na sua doença de forma barata, de graça, porque é uma planta”, afirma.

Pedro ressalta que sempre é feito um acompanhamento médico e social e que, mesmo que algumas pessoas contatem a Santa Cannabis interessadas nos efeito alucinógenos da planta, esse não é o fim da associação.

Na Santa Cannabis, Jeane foi encaminhada para consulta médica e orientada sobre como adquirir o óleo, o que fez por meio da própria associação. Eduarda começou a receber gotas do óleo há cerca de sete meses. Hoje, com 1 ano e 9 meses, consegue abrir a mão, levar à boca e até pegar objetos.

“Antes do óleo, ela não tinha esse movimento da mão. Um mês depois, a gente já notou que ela começou a abrir a mão, começou a levar na boca, começou a querer pegar os objetos com a mãozinha direita. A atenção, antes a gente falava e ela demorava para responder, demorava para virar, para olhar pra gente. Hoje, não, eu vejo uma melhora de 70%, 80%, em seis, sete meses”, diz. “O que eu tenho para dizer é que milagre a gente não consegue fazer, mas tenho muita melhora da minha filha”.

Jeane diz que, em sete meses de uso, ainda não percebeu nenhum efeito negativo em Eduarda. “A gente só viu melhora, só viu evolução”, diz.

Segundo a mãe, menina ainda não apresentou efeitos colaterais negativos pelo uso de canabidiol | Foto: Giulia Cassol/Sul21

Um dos médicos que Jeane procurou foi Liceu Amaral Moletta, de Novo Hamburgo. Há cerca de três anos, ele chegou a tentar montar uma associação de médicos gaúchos prescritores de cannabis. No entanto, como a demanda era muito grande, optou por não fazer a associação de médicos, mas de pacientes, para que as pessoas pudessem ter o acesso facilitado ao canabidiol, cuja versão sintética é importada dos Estados Unidos ao custo de R$ 2,4 mil a seringa. “Exclui 99% da população que poderia usar só pela questão do preço. O acesso é muito ruim”, afirma.

Contudo, concomitantemente a esse projeto, foi criada a Santa Cannabis em Santa Catarina, que também auxilia famílias gaúchas, como a de Jeane. Por isso, Liceu acabou preferindo aguardar para ver se seria necessária uma nova associação. “Hoje o Brasil é o país mais atrasado com relação à legislação da cannabis. O mundo já entendeu que tem que legalizar, que tem que regularizar, que tem poder medicinal, sim. É fato, incontroverso”, diz o médico.

Liceu afirma não há aspectos negativos percebidos até o momento em relação ao canabidiol e que os resultados são positivos para o tratamento de diversas doenças, desde insônia, náuseas e vômitos, até por pacientes de quimioterapia, com epilepsia, Mal de Parkinson, Síndrome de Tourette, entre outras. Segundo ele, as evidências mostram ainda que o óleo caseiro, mesmo feito sob condições não necessariamente adequadas, tem efeitos muito superiores ao produto importado.

“Talvez tenha pacientes que tiveram como efeito colateral a sonolência. Beleza, vamos dar de noite para ele. Ou reduz a dose ou troca a espécie. E esse é o nosso problema, a gente não tem esse arsenal de espécies que os países que já regulamentaram têm. Então, há opções de terapia. Não deu com essa espécie, vamos com outra. Ou não deu com o óleo, vai com um pirulito. Tem muitas formas de administrar. E, aqui no Brasil, por causa da proibição, a legislação muito atrasada, nem sequer permite isso”, diz o médico.

Moradora de Porto Alegre, Andreia também conheceu os benefícios do canabidiol a partir de reportagem na televisão. Mãe de duas crianças diagnosticadas com autismo, de 4 e 2 anos, ela diz que a família questionou o neurologista das crianças se o óleo não poderia ajudar a reduzir os efeitos da doença e se não seria uma alternativa menos agressiva que a medicação química que elas tomavam.

A filha mais velha do casal tinha grandes dificuldades de se comunicar. Já o filho mais novo se auto-agredia e, assim como a irmã, também era não-verbal. Andreia conta que ele batia a cabeça no chão, na parede, arranhava o chão, enfiava objetos embaixo das unhas até que elas descolassem ou quebrassem. “Ele não tinha dimensão da dor. Ficava se machucando, se machucando e, se a gente não intervisse, não parava de fazer isso”, diz.

Com o apoio da neurologista, há quatro meses os dois começaram a fazer uso do canabidiol. “A maior já teve um resultado muito grande na questão da fala. A gente ainda não tem diálogo, mas ela já consegue relatar algumas coisas para nós em relação ao que ela está vendo, às vezes, em relação ao que ela está sentido, coisa que não acontecia antes. O menor tem conseguido olhar para nós agora, ele presta atenção no que a gente está falando. Ele estão aprendendo a brincar. Tudo conciliando com a terapia, mas a medicação teve um resultado muito grande, muito positivo na vida deles. Para quem eu posso, eu indico para falar com um neurologista para saber se tem indicação”, diz. Sobre a autoagressão do menino, diz que também houve um grande avanço. “Não parou 100%, mas reduziu uns 80%”.

Ao contrário de Jeane, Andreia não tem o apoio de nenhuma associação para adquirir o óleo. O que ela faz é comprar a cannabis clandestinamente e produzir o óleo em casa, de forma artesanal. Ela sabe que está se arriscando. “Simplificaria muito mais se tivesse a liberação completa, porque aí tu não precisaria estar se expondo, tendo que buscar dessa forma, a gente não sabe exatamente a procedência, a qualidade. Tu acaba te arriscando, porque tu não sabe 100% o que tem ali, é como jogar no escuro”, afirma.

No entanto, diz que não irá parar enquanto o efeito continuar sendo positivo para os seus filhos. Até o momento, também não observou nenhum efeito colateral.

Mãe da menina Carol, Liane é uma das principais lutadores do Rio Grande do Sul pela regularização do canabidiol | Foto: Giulia Cassol/Sul21

‘Mais de 50 convulsões por dia’

A reportagem que Jeane e Andreia viram na televisão contava a história da Carol, 10 anos. Na última semana, o Sul21 esteve na casa da família da menina, em Canoas, para conversar com a mãe dela, Liane Maria Pereira, que travou uma longa batalha judicial até conseguir permissão para plantar mudas de cannabis em casa e produzir o óleo artesanalmente.

Portadora da Síndrome de Dravet, uma doença incapacitante que tem como principal característica frequentes ataques epilépticos e convulsões desde a primeira infância, Carol estava junto de Liane durante a conversa. Quem vê a menina assistindo televisão, brincando no celular e nadando na piscina de plástico no quintal da casa, dificilmente conseguiria acreditar que era a mesma criança que há poucos anos precisava de sondas para se alimentar e respirar.

Apesar de os efeitos da síndrome se manifestarem desde cedo, médicos demoraram até identificar que Carol sofria com a doença. Liane conta que a gravidez foi inesperada, quando ela tinha 40 anos. Foi também uma gravidez de alto risco, pois descobriu que tinha plaquetas baixas, o que está associado com sangramentos anormais. Contudo, a princípio, não haveria problemas com a bebê. Carol nasceu em janeiro de 2010. “Lá no Hospital de Clínicas, eu já notei algo diferente. Hoje eu sei que eram espamos, mas na época eu não sabia”, diz.

Comentou com os médicos, mas eles afirmaram que eram movimentos involuntários de recém nascido. Também percebera que, ao mamar, Carol revirava os olhos. “Hoje eu sei que já era uma convulsão ocular”, diz. Para Liane, convulsões eram aquelas crises em que as crianças caiam no chão “se batendo”, babando – sintomas de convulsões sofridas por epilépticos. Desconhecia outros tipos de crise. “Na caminha dela, ela ficava durinha, sacudia e voltava”.

Com 25 dias, Carol teve a primeira crise convulsiva grave. Quase faleceu. Foi internada no Hospital da Criança Santo Antônio, do complexo hospitalar Santa Casa de Misericórdia, em Porto Alegre. Segundo Liane, a suspeita era de que ela sofria de refluxo, porque os eletrogramas não apresentaram resultados divergentes. Só mais tarde saberia que a Síndrome de Dravet tem como característica o fato de os eletrogramas não apresentarem atividade neurológica atípica nos primeiros anos de vida.

Eles só descobriram que as convulsões eram causadas pela síndrome quando Carol tinha dois anos, depois que o neurologista que acompanhava a menina participou de um congresso em que a doença foi discutida. “Eu fui pesquisar e, na época, há 7 anos, o que tinha era vídeos no YouTube, tu achava muito pouca literatura na internet”, diz.

Mas saber o mal que acometia a menina não facilitou as coisas. Pelo contrário, ela começou a piorar rapidamente a partir dos três, quatro anos. Aos poucos, a menina que caminhava já não conseguia mais se manter de pé. As convulsões passaram a ser mais e mais frequentes, chegando ao ponto de, em 2014, quando tinha 4 anos, passar seis meses internada no Santo Antônio e outros dois no Hospital São Lucas da PUCRS.

Liane e o marido imaginavam que ela pudesse melhorar com uma cirurgia, mas foram desaconselhados. “O médico dela disse assim: ‘A cabecinha da Carol é como uma noite de réveillon, foguetes para todo o lado, então não tem como mexer porque vamos tirar funções importantes dela’. Uma luz no túnel que a gente tinha, foi por água baixo”, conta.

Nessa idade, a menina já não conseguia mais se locomover sem auxílio de cadeira de rodas dada a frequência de convulsões. Liane diz que a filha chegava a “apagar” por dois ou três dias, o que também acabou tirando a força de suas pernas.

A família de Carol ganhou na Justiça o direito de plantar mudas de maconha em casa | Foto: Giulia Cassol/Sul21

Tentaram então diversas combinações diferentes de anticonvulsivos, até que, em 2015, foi receitado Carbamazepina, um medicamento usado para tratamento da epilepsia, mas que traz fortes efeitos colaterais. “Foi entrar com esse remédio, a Carol piorou muito. Hoje eu sei que é um anticonvulsivo que não é próprio para Dravet. E aí a Carol não tinha mais reações. Ela tinha sede, dizia ‘mamãe, a Carol quer…’ e convulsionava ou dormia. De 24 horas, ela passava 23 nesse ponto”, diz

Foi apenas em agosto de 2015, quando a menina tinha cinco anos, que exames confirmaram a Síndrome de Dravet e a única coisa que restava para ela era a cannabis medicinal, na época referida como CBD.

Liane diz que havia começado a ouvir falar sobre canabidiol no ano anterior, a partir do sucesso do filme “Ilegal”, que conta a história da luta de Norberto Fischer para conseguir o óleo para o tratamento da filha, Anny, portadora da síndrome CDKL5, que a fazia sofrer, em média, 60 convulsões por semana. A família de Anny foi a primeira a conseguir autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para importar o medicamento na versão em que o CBD é isolado quimicamente.

Ela então resolveu entrar em contato por redes sociais com o próprio Norberto, que retornou com a informação sobre a papelada necessária para encaminhar o processo junto à Anvisa.

Na época, o medicamento importado saia por cerca de R$ 3 mil por ampola. A família entrou na Justiça para garantir o dinheiro para a compra. Em janeiro de 2016, receberam o primeiro repasse de medicamentos, suficientes para três meses. “As crises deram uma melhorada, só que a Carol tinha mais de 50 crises por dia. Ela parou de ter 50, mas tinha crises muito longas. Ao ponto de a gente ir para Porto Alegre, chegar no Santo Antônio e ela ainda estar convulsionando”.

Na sequência, o repasse não veio, precisaram comprar do próprio bolso. Faziam empréstimos, rifas, vaquinha online, buscavam apoio junto a uma rede de amigos e conhecidos que passaram a ajudar a menina. “Só que não era aquele resultado esperado”.

A situação de Carol se agravou e ela passou a sofrer seguidas pneumonias, a musculatura começou a falhar e ela precisou colocar uma sonda gástrica para se alimentar. Em seguida, precisou fazer uma traqueostomia para também receber ajuda para respirar. “Nós estávamos sendo cercados. Só vinham notícias bomba”, diz.

Em abril de 2017, Liane e o marido, José Juarez Gomes da Silva, assistiram no programa Fantástico uma reportagem sobre Cidinha, mãe de uma menina com Síndrome de Dravet, que havia ganhado habeas corpus para plantar pés de cannabis em casa e produzir o óleo canabidiol por conta própria. Eles descobriram que a família de Cidinha participaria da abertura da Marcha da Maconha no dia 6 de maio de 2017, na Av. Paulista. “Eu digo: ‘nós temos que conhecer essa pessoa'”.

Foram para São Paulo e Liane foi surpreendida. Imaginava que a marcha se tratava de um evento pequeno. “Nós caímos na Paulista com aquele mundaréu de gente, eu, minha, mãe e a Carol”. Ali, conheceram Cidinha, que é presidente da Cultive, associação sem fins lucrativos que não vende ou repassa o canabidiol, mas oferece cursos em que ensina famílias a plantar e extrair o óleo da cannabis.

Na ocasião da marcha, também receberam uma amostra de óleo artesanal de outra pessoa. Liane levou essa amostra para a neurologista da menina e questionou se poderia começar a produzir de forma caseira, uma vez que já não tinham mais condições de comprar o CBD importado e a menina não poderia ficar sem, pois, mesmo que o progresso fosse lento, as convulsões haviam diminuído.

A médica a autorizou a testar o óleo artesanal, com a ressalva de que deveria voltar ao importado em caso de reações negativas. “Foi entrar aquele óleo artesanal e a Carol mudou da água para o vinho, para melhor”, conta.

Percebendo que havia uma grande diferença entre o produto artesanal e o CBD isolado quimicamente, Liane resolveu fazer o curso com Cidinha. Além de aprender como produzir o óleo em casa, ganhou duas mudas de cannabis de presente, que trouxe no avião de volta ao Rio Grande do Sul “na cara e na coragem” em setembro de 2017. “Pela nossa filha, nós tínhamos que fazer”.

Contudo, antes de começar a produzir, entrou em contado com a advogada que a havia ajudado no processo junto à Anvisa, que entrou, no dia 12 de outubro de 2017, com um habeas corpus preventivo para que não pudessem ser presos por plantar as mudas em casa. “Tu entra com um processo dizendo para o juiz que tu estás cometendo um delito e pedindo para que não tire e por que que não tire, tem que provar”, diz.

Habeas corpus libera o plantio de cannabis para a produção do medicamento de Carol | Foto: Giulia Cassol/Sul21

O habeas corpus levou um ano e meio para sair. Ainda não produziam o óleo, mas passaram a usar com regularidade o outro que fora cedido ou um que comprovam pronto. “A diferença na vida da Carol, do óleo artesanal para o CBD importado, a mudança foi total”, diz.

Em meados de 2018, após as primeiras mudas morrerem e outras, mais adequadas ao tratamento de Carol, serem trazidas de carro de São Paulo, a família ganhou coragem e passou a fazer o óleo em casa. Há um ano e quatro meses, Carol não tem mais convulsões. Em outubro de 2018, foi a primeira vez ao shopping de Canoas sem cadeira de rodas. “A alegria da vida dela foi andar de escada rolante”, diz a mãe. A cadeira, que precisava usar desde os quatro anos, foi doada em maio do ano passado.

Em abril de 2019, a sonda gástrica estourou durante uma noite. Levaram ao Santo Antônio para recolocar. Estourou de novo, voltaram ao hospital. “Cheguei em casa, fui botar os remédios e estourou de novo. Ah, não, eu disse, não vou botar de novo”. Liane então optou por fechar o buraco da sonda e ministrar medicamentos pelo via oral.

Em contato com os médicos, decidiram tirar a sonda, o que ocorreu naquele mesmo abril. “Hoje, ela come tudo pela boca, come a comida normal. Tudo aquilo que a gente achava que tava ruim, a cannabis resgatou”.

Desde que Carol passou a utilizar seis gotas do canabidiol produzido na casa da família, já deixou de usar quatro remédios anticonvulsivos, restando apenas um. Em janeiro passado, tiraram uma medicação tarja preta que ela usava desde os primeiros meses de vida e Carol voltou a ter tremores enquanto dormia. Aumentaram a dose em duas gotas e a situação voltou a se estabilizar.

Liane, Carol e José Juarez | Foto: Giulia Cassol/Sul21

Liane sabe o que representa para outras mães. Assim como Cidinha a ajudou, ela tenta ajudar quem lhe procura. Diz que, diariamente, recebe contatos via redes sociais. “‘Tu sabe aquela mãe que tu ajudou?’ Sinceramente, eu nem lembro, porque são tantas. ‘Ele está andando de bicicleta’. É lindo de ver”.

Ela faz questão de frisar que sempre recomenda que as pessoas procurem um médico e que o que ela faz é ajudar a encontrar um profissional que possa receitar ou dar orientações para pais que estão começando a buscar informações.

Mãe de outros dois filhos adolescentes, Liane, que é funcionária pública aposentada, diz que até o ano passado tinha medo que a polícia pudesse bater na sua casa e apreender as plantas. Agora está mais tranquila, mas guarda o habeas corpus — ainda temporário — em várias gavetas espalhadas pela residência. Se alguém perguntar, ela está pronta para mostrar a decisão judicial que proíbe que autoridades policiais autuem a família em flagrante “pelo cultivo, semeio e colheita de ‘cannabis sativa'”.

Ex-ministro Osmar Terra é um dos principais adversários da liberação do acesso à cannabis medicinal no Brasil | Foto: Maia Rubim/Sul21

Um inimigo em comum

Na boca de todos as mães e demais entrevistados para essa matéria há um nome em comum quando se fala de entraves que precisam ser superados para a liberação do plantio caseiro: o agora ex-ministro da Cidadania, Osmar Terra (MDB). Histórico opositor da cannabis medicinal, ele sempre faz questão de deixar claro que a sua contrariedade com o movimento pela liberação do uso. “Maconha não é medicinal. O óleo da maconha tem 480 substâncias que causam dano permanente”, disse nesta quarta-feira (12). A posição dele é de que liberar o plantio ou outras formas de regulação do canabidiol produzido no Brasil significaria liberar as drogas.

Em dezembro, ele comemorou a decisão da Anvisa de barrar o cultivo de maconha para fins medicinais e regulamentar apenas a venda de produtos com o CBD isolado quimicamente. “O presidente da Anvisa vinha prometendo a liberação do plantio da maconha, o uso da maconha como remédio para a população brasileira, mas foi derrotado. A maioria da direção da Anvisa decidiu por não permitir plantio e uso da maconha como remédio, o uso medicinal”, disse Terra, em vídeo postado no Twitter no dia 3 de dezembro.

Liceu considera “vergonhosas” as posições de Osmar Terra e que ainda há muitos interesses comerciais, especialmente o lobby farmacêutico, jogando contra. Por outro lado, acredita que é justamente o jogo financeiro que pode facilitar a liberação. “Acho que essa questão só vai para frente quando a cannabis virar agrobusiness. Fora do Brasil, isso já está acontecendo”, diz.

Ele acrescenta ainda que, pelo que percebe, a proibição, assim como no consumo recreativo, sequer tem resultado. “Se a pessoa tiver que ficar quatro meses esperando resposta da Anvisa, ou ela vai para a ilegalidade ou faz como muitas famílias gaúchas que estão indo para o Uruguai buscar o óleo sintético de organizações e cultivadores que não são medidos, não são aferidos, não se sabe a qualidade que tem, não se sabe como foram produzidos, se tem algum tóxico junto”.

Liane conta que já participou de diversos eventos públicos com a presença do ex-ministro. “Quando a gente escuta o Osmar Terra falar que nós mães estamos sendo usadas pelos traficantes para liberar a droga, isso dói muito na gente. Até em questão de drogas a minha cabeça mudou, porque eu tinha a impressão do maconheiro como aquele que não trabalha, o vagabundo, e hoje eu conheci muitos usuários recreativos, que a gente até se questiona se são recreativos, porque tu vai a fundo e vê que a pessoa usa quando está ansiosa, quando tem algum problema. Pessoas com doutorado, pais de família, super bem de vida, e que muitas vezes têm a sua mudinha no canto de casa para não dar valor pro traficante. Até isso tu aprende a olhar com outros olhos”, afirma.

Pedro, da Santa Cannabis, diz não ver sentido na posição defendida pelo ex-ministro de apenas aceitar a liberação do produto importado. “Não vejo inteligência nisso, porque o importado é caro. Terra defende o CBD isolado, sendo que Israel já provou que precisa de todos os componentes e que isolado não faz o menor sentido, principalmente o isolado químico, a base de petróleo”, diz. “É uma estratégia burra, que vem justificada em uma insegurança sobre o controle que se vai ter, como se houvesse algum controle sobre as drogas do País. Quem quer usar droga hoje, consegue usar com um telefonema. Agora, quem precisa do remédio, não consegue fazer se não for atrás de uma burocracia e pagando caro”, complementa.

Liane afirma que conheceu pais que, em caso de necessidade, foram buscar o óleo que hoje já é vendido em bocas de fumo. “Até quando a gente foi ao Senado, um pai falou: ‘eu fui na boca de fumo e o traficante me deu um valor, quando eu falei que era para o meu filho que convulsionava, ele disse, não, para ti o valor é a metade’. Ele ainda olhou e disse: ‘senhores senadores, às vezes o traficante dá mais valor para nós do que vocês’. A vida não espera. Se tu tá vendo a tua filha ir, tu vai em busca. Foi o que nós fizemos, sem nos preocupar”.

Para Pedro, a regularização da cannabis medicinal é incontrolável em um futuro próximo devido ao crescimento da procura por parte dos pacientes e também pelo crescente interesse econômico no mercado. “A gente precisa ser honesto com o povo brasileiro: as pessoas precisam do remédio, o remédio cura. A pessoa quando está doente não quer saber se está na lei, ela quer a cura e vai buscar. Isso piora quando a gente está falando de uma planta que nasce no quintal. Se quiserem controlar, não vai ser por meio do plantio, vai ter que institucionalizar por meio de associações, de empresas, de farmácias o plantio dentro do Brasil, senão ele vai ter que prender todo mundo que planta em prol da saúde. Aí ele vai ter que prender uma mãe que tem uma filha com 40 crises de convulsões por dia”.

Andreia acredita que o estigma social que impede a liberação da chamada maconha medicinal é resultado do desconhecimento. “Quem não conhece, julga de forma muito superficial. As pessoas não têm noção de como pode ser benéfico. Sendo usado na dose certa, é um medicamento poderoso. Tendo orientação, tendo acompanhamento médico, já que tem resultados fantásticos para várias doenças. Eu nunca fiz utilização da maconha, mas eu super apoio o uso medicinal. Faz uma diferença gigantesca mesmo e quem fala não tem a noção, e mistura completamente os assuntos”, afirma.

Liane concorda. “O que eu vejo é que o que leva ao preconceito é o desconhecimento. Aquela visão que eu tinha, tem pessoas que ainda têm e não querem abrir a cabeça. Eu já escutei pessoas conhecidas dizendo ‘que bom que ela está tirando os anticonvulsivos, tomara que chegue o dia que ela possa tirar essa droguinha também'”, diz. “Para mim, o que gera o preconceito é a ignorância e, principalmente, o não precisar. Eu não desejo o mal para ninguém, mas eu queria que o Osmar Terra tivesse algum familiarzinho que tivesse um dia uma convulsão atrás da outra”.

 

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