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Para pensar a Amazônia após o pesadelo

Outras Palavras coedita livro em que Ricardo Abramovay demonstra a insanidade do desmatamento e propõe uma “economia do conhecimento da natureza”. Obra relembra necessidade de uma esquerda que vá além da denúncia

Colhedoras cooperadas de babaçu. Extrativismo sustentável é uma das atividades que ocupam população, mantêm a floresta em pé e favorecem política de “desmatamento zero”

Por Antonio Martins

Amazônia — Por uma Economia do Conhecimento da Natureza
De Ricardo Abramovay
Uma coedição Outras Palavras, Elefante e Terceira Via
Disponível em nossa loja virtual



As primeiras mobilizações em defesa da Amazônia ocorreram, espontâneas, em agosto de 2019, quando as nuvens de fumaça das queimadas cruzaram o país e bloquearam a luz do sol no meio da tarde. A oposição ao desmatamento é largamente majoritária, inclusive entre quem apoia o presidente que comanda a devastação. O livro de Ricardo Abramovay aporta, a esta consciência nascente, dois ingredientes indispensáveis. Ele demonstra que o fim da maior reserva de biodiversidade do planeta não é inevitável – e, portanto, a luta social (ou sua ausência) será o fator decisivo. E, ainda mais importante, oferece pistas seguras sobre uma alternativa.

Participante, há décadas, de reflexões e lutas em favor da Amazônia, Abramovay distancia-se, porém, daqueles que enxergam na região apenas o idílio natural, o paraíso terrestre que deveria permanecer intocado. Ele lembra: vivem, só na parte brasileira do bioma, 25 milhões de pessoas – mais que Suécia, Finlândia e Noruega juntas.

Esta população cresce, há mais de três décadas, a um ritmo duas vezes maior que o do país. Instala-se em condições precárias: em terras invadidas por grileiros, exercendo atividades mal remuneradas, submetida permanentemente à violência, espalhada por um imenso território, desassistida pelo Estado e pela Justiça. Há dois caminhos: um é deixá-la ao léu e permitir que o poder econômico, frequentemente associado ao crime, impulsione-a contra a floresta e as populações originárias. Nas queimadas e extração ilegal de madeira. Na ocupação de áreas protegidas por lei (50% do território amazônica), mas nunca suficientemente defendidas. Nos garimpos clandestinos. Nos canteiros de obras absurdas.

A alternativa, explica o autor, é o desmatamento zero, combinado com a oferta, a milhões de amazônidas, de ocupações dignas, junto à floresta em pé. Isso é possível; já ocorre, em pequena escala; pode se generalizar facilmente, com enorme ganho social ambiental e econômico, caso mudem as políticas públicas para a região. Dos cinco capítulos da obra, o terceiro, que trata especificamente deste tema, é o mais instigante. Abramovay cita algumas das atividades que indicam o possível surgimento de uma Economia do Conhecimento da Natureza – subtítulo do livro. São elas: Extrativismo Sustentável; Turismo Ecológico; Manejo Florestal (em que a madeira é explorada em ciclos de 25 a 35 anos, de modo a retirar apenas as árvores maduras, preservando as jovens); Restauração Florestal com espécies nativas nas áreas degradadas (como fazem China, França e Alemanha, por exemplo).

Há uma proposta ainda mais desafiadora. Sabemos ainda muito pouco sobre como tirar proveito da vastíssima biodiversidade da floresta em pé, para a produção de medicamentos, cosméticos, sementes. Para desenvolver este conhecimento, Abramovay suscita uma ideia formulada pelo cientista brasileiro Carlos Nobre: a criação de Laboratórios de Inovação da Amazônia, que articulariam “os conhecimentos seculares das comunidades tradicionais, com a pesquisa científica sobre a biodiversidade”.

À medida em que se avança na obra de Abramovay, uma outra Amazônia surge, viva, na mente do leitor. Nela, a floresta e seus habitantes ancestrais são protegidos. Não há fogo, nem clareiras cada vez maiores engolindo a mata. Recupera-se o poder de fiscalização dos órgão públicos. Aos poucos vão se multiplicando as iniciativas de extrativismo sustentável, que hoje existem em pequena escala. Nelas, é possível obter ocupação segura e renda digna. Tudo isso é alimentado graças aos Laboratórios de Inovação. Neles, pesquisadores de todas as partes do país participam, com os povos indígenas, de uma troca de saberes científicos e culturais que gera novos medicamentos e outros produtos.

Parece fantasia, nas condições de hoje. Não será possível, porém, superar os tempos de nuvens escuras que invadem nossas tardes, sem pensar projetos para o Brasil pós-Bolsonaro. O trabalho de Ricardo Abramovay tem o mérito de guiar nossa imaginação, num território tão fantástico como a Amazônia – e de relembrar que certas utopias políticas, sendo muito difíceis, não são, por isso mesmo, impossíveis…

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fonte: https://outraspalavras.net/crise-brasileira/para-pensar-a-amazonia-apos-o-pesadelo/

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