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Paulo Freire: A voz da liberdade que jamais se calará

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FOTO: PAULO FREIRE E NITA FREIRE, 1998. ARQUIVO PESSOAL DO CASAL

 

MICHELINY VERUNSCHK

2019-09-01

Nita Freire fala sobre Paulo Freire e sua obra. A conversa com Micheliny Verunschk aconteceu quando o trabalho do educador, morto em 1997, já sofria rejeição por parte de alguns setores da sociedade brasileira, mas ainda não tinha sido alvo de ataques do poder público central. Por mostrar a força do empenho de Nita para manter vivo o pensamento de uma figura das mais estudadas no mundo, principalmente num tempo marcado por retrocessos, não perdeu a sua atualidade.

Ana Maria Araújo Freire, ou Nita Freire, como é mais conhecida, é doutora em educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e viúva de Paulo Freire, sobre quem escreveu o livro Paulo Freire  Uma história de vida, um dos livros vencedores do Prêmio Jabuti de 2007, na categoria biografia. O livro ganhou uma reedição em 2017, ano em que se completaram 20 anos da morte do educador. A história de Nita e Paulo precede a relação de amor do casal. Os pais da pedagoga foram donos da escola que Paulo Freire frequentou e proporcionaram-lhe educação formal quando a família do educador não teve meios de pagar seus estudos. Pernambucana de Recife, ela se revela uma mulher apaixonada e atuante e fala sobre suas motivações para escrever esse livro e das relações entre o pensamento freiriano e as questões de poder.

 

O que a levou a escrever uma biografia de Paulo Freire?

Eu precisava me rever e rever a representação de Paulo para mim. Não queria tratá-lo como mito, mas como o companheiro, educador e amante que foi. Um homem fascinante, que teve que amadurecer muito cedo e que, aproveitando as experiências dramáticas pelas quais passou, se aprofundou nos problemas da miséria nordestina. Esse livro traduz a minha relação inteira com Paulo e nele está posto todo o meu coração, todo o meu amor. Deu muito trabalho e foi minha principal preocupação intelectual durante sete anos. De modo que me responsabilizo inteiramente por ele, pelas escolhas tomadas, pelas informações. Nele trabalhei praticamente sozinha e fico muito contente com o resultado final.

 

Há relações entre o pensamento freiriano e o empowerment (empoderamento), de que tanto se fala nos últimos anos?

O empoderamento nunca foi uma questão para Paulo. Ele jamais escreveu sobre isso e talvez nunca respondesse diretamente sobre esse conceito. Isso porque Paulo tinha um certo receio de dizer “eu tenho poder”, pois, para ele, isso estava na base da verticalidade das relações, na base do mando. Para Paulo, qualquer decisão era uma decisão com o outro. “Decidir com” é escutar o outro, refletir sobre ele. Paulo preferia trabalhar com o desvelamento da realidade, com o processo que o indivíduo passa para se tornar crítico, optando por uma posição a favor ou contra algo. Com isso o diálogo pode se instaurar e é possível construir um “ser mais”. Isso é muito diferente do empoderamento. O empoderamento é individualista, uma criação do neoliberalismo. E devemos ter cuidado com a falácia do empoderamento, pois no processo de nossa libertação, devemos criar a nossa autonomia. Mas ninguém é livre ou autônomo sozinho, então, devemos procurar, também, a libertação e autonomia do outro, dando-lhe condições de ser sujeito da história.

 

Trata-se, então, de ganhar voz?

Conheci Paulo desde criança, desde antes dos 4 anos de idade. Ele nunca deixou de frequentar a casa dos meus pais e assim, pude acompanhar o fascínio dele ao se lançar numa campanha de alfabetização num Estado, como Pernambuco, em que 80% da população no começo dos anos 60 era analfabeta. E não apenas isso. Era submissa. Para se ter ideia, os pobres não iam à praia. Foi Paulo um dos que, no Movimento de Cultura Popular, deu início à campanha A Praia é Nossa. Anos depois, quando ele voltava a Pernambuco e via as praias de Boa Viagem ou Piedade lotadas, ele sentia muito orgulho. Com o povo, ele chamou o povo a ter voz e isso tem ecos até hoje, pois, de certo modo, ele também chamou homens como o presidente Lula a ter voz. Ele incentivou essa rebeldia irreverente das classes mais pobres em relação às classes de maior poder aquisitivo. Paulo não fala de empoderamento. Fala de libertação.

 

Paulo Freire é muito conhecido e estudado fora do Brasil. Mas, ao que parece, sua presença ainda é tímida no nosso país. A seu ver, o que determina isso?

Ninguém nunca é uma unanimidade e Paulo é um pensador politico. Ele mesmo dizia: Não sei se sou um educador politico ou se sou um politico educador. Talvez por isso ele ainda não seja estudado em muitas das universidades brasileiras. Para o pensamento de Paulo não existe neutralidade e isso pode incomodar, pois seu pensamento não se reduz ao método, mas o método tem por fim conquistar a estratégia maior, conquistar a possibilidade de uma sociedade mais justa, mais humanizada, capaz de um grande amor pela humanidade. Paulo partiu das coisas locais, da sua experiência. Leu sociólogos, filósofos. Leu loucamente. Radicalizou o pensamento local com o que aprendeu do mundo, por isso seu pensamento se espraiou. Ele é pouco aceito aqui, porque é politico e radical. Radical porque vai às raízes das questões. E as pessoas e as instituições não querem se engajar com um pensamento desses, daí preferem importar pensadores de fora que, no entanto, não chegam às raízes dos problemas como Paulo chegou.

 

Qual o legado de Paulo Freire às novas gerações?

O legado deixado por Paulo é o legado da esperança e do amor, que vem de sua profunda crença na humanidade. Um legado que vem sendo descoberto pelos jovens que, cada vez mais tomam contato com sua literatura e percebem que sua mensagem tem tudo a ver com o mundo novo que se quer criar, mais justo, mais humano, mais amoroso.

 

 

Entrevista publicada originalmente na extinta revista Continuum - Itaú Cultural (2013)

 


 

 
MICHELINY VERUNSCHK

É autora dos romances O amor, esse obstáculo (Patuá, 2018), O peso do coração de um homem (Patuá, 2017), Aqui, no coração do inferno (Patuá, 2016) e nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida (Patuá, 2014), projeto com patrocínio da Petrobras Cultural. Também é autora dos livros Geografia Íntima do deserto (Landy, 2003), O observador e o nada (Edições Bagaço, 2003), A cartografia da noite (Lumme Editor, 2010) e maravilhas banais (Martelo Casa Editorial, 2017). O romance nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida foi ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura 2015. Tem trabalhos publicados na França, Portugal, Espanha, Canadá e EUA. É mestre em Literatura e Literatura e Crítica Literária e Doutora em Comunicação e Semiótica.

 

fonte: https://revistapessoa.com/artigo/2837/a-voz-da-liberdade-que-jamais-se-calara

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