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Alguns escritores negros gaúchos de agora-agora [1]

Ronald Augusto (*) - SUL 21

As literaturas constituem campos instáveis cujas disputas colocam em jogo sequências de formas e atualizações demandadas tanto pelos escritores, quanto pela recepção. A literatura negra, que no caso nos serve de baliza, segue em movimento: ela se inventa a si mesma enquanto inventa o seu leitor; neste quesito ela não difere substancialmente de outras literaturas. Novas leituras reacomodam os dados antes estáveis, então o jogo recomeça. Uma ideia de Jorge Luis Borges, um pouco a propósito das questões aqui suscitadas, merece ser lembrada. O argentino escreve (em meados do século 20) algo que pode nos ajudar a considerar a coisa por um ângulo mais desanuviado, e é o seguinte:

Uma literatura distingue-se de outra, ulterior ou anterior, menos pelo texto do que pela maneira de ser lida: se me fosse permitido ler qualquer página atual – esta, por exemplo – como será lida no ano 2000, eu conheceria a literatura do ano 2000.

Reprodução

O sistema literário é, em certa medida, a representação especular, embora com suas singularidades, das determinações sociais, raciais e econômicas abrigadas sob o arco ideológico que, por sua vez, tem um forte traço conservador. A experiência do escritor negro na rede de relações de prestígio e de prestigiamento entretecidas em tal ambiente o ensinaram a reconhecer a existência de um desconforto mútuo. Isto é, às vezes ele representa o estrangeiro e, de outra parte, os demais escritores, que poderiam ser considerados como os “seus iguais”, formam um grupo com o qual o escritor negro não alcança ou nem pretende alcançar a menor identificação. A invisibilidade tanto pode ser construída ao modo de um controle exterior, como pode ser auto-infligida enquanto reflexo da absoluta assimetria relativamente à reciprocidade do reconhecimento. Tal contato extremamente necessário – conquanto seja mais ou menos tenso – não é favorável apenas aos escritores negros, isso, na verdade, pode trazer um benefício para o próprio sistema literário, pois o alargamento dos limites desse sistema vai repercutir, ao fim e ao cabo, em diversidade textual e cultural para a literatura contemporânea feita no Brasil.

Sobre o pequeno conjunto de escritores que escolhemos, cabe dizer uma palavra: há outros poetas e escritores negros no RS e que, obviamente, não são desprezíveis, porém nós não poderíamos deixar de destacar esses que nos parecem os mais relevantes tendo em vista, por assim dizer, a perturbação dos acervos à disposição, seja o acervo da autoria negra, seja o acervo considerado canônico. Assumimos nossas escolhas sem problema. Com relação tanto aos demais escritores negros em atuação no Rio Grande do Sul, quanto a tudo que tenhamos afirmado nesse breve artigo, fique o leitor à vontade para refletir e replicar. Então, interrompemos por aqui nossos comentários com a convicção de que esse mesmo leitor cumprirá sua parte no jogo estético-crítico se inclinando sobre a literatura em causa e formando suas próprias conclusões.

Oliveira Silveira (1941-2009)

Escritor com mais de uma dezena de livros (todos de poesia) editados sempre em Porto Alegre a partir de 1961. Merecem destaque, entre outros, Banzo, saudade negra (1970), Pelo escuro (1977), Roteiro dos tantãs (1981), Anotações à margem (1994), Orixás: pinturas e poesia (1995) em parceria com o pintor Pedro Homero, e Bandone do Caverá (2008), publicado às vésperas da morte do poeta. Participação em antologias nacionais e estrangeiras. Ensaios publicados na imprensa ou pronunciados em eventos. Traduções de poemas de Aimè Cèsaire e Langston Hughes estampados no Caderno de Sábado do Correio do Povo. Idealizador e fundador do grupo Semba de arte negra. Em 2012 é publicado pelo Instituto Estadual do Livro Obra reunida: Oliveira Silveira que tivemos a chance de organizar e apresentar.

O poeta e estudioso da literatura negra Oswaldo de Camargo, afirma que Oliveira Silveira é um poeta que a partir de Banzo, saudade negra se insere “claro e negro” em uma pequena tradição de criadores que lograram “falar negro-poeticamente” formando assim um grupo de precursores. As palavras de Oswaldo de Camargo – o intérprete e entusiasta, par excellence, de uma literatura negra competente, mas convencional, inserida no panorama antológico das letras brasileiras – encontraram eco no poeta de Roteiro dos Tantãs (1981). Com efeito, Oliveira Silveira é um autor cujos poemas e reflexões críticas estão tensamente imbricados no debate referente aos dilemas de uma vertente negra na literatura brasileira. Mas, usando a estratégia da dissimulação, Oliveira persegue uma linguagem negra formalmente ousada, a par de ser contemporânea e universal.

Se for preciso, portanto, mesmo que provisoriamente, encaixar Oliveira Silveira na moldura do poeta participante, ele só o será, no nosso entender, segundo a acepção que Mario Faustino (1930-1962) empresta ao qualificativo, a saber, seu apetite de linguagem será “participante como a poesia deve ser participante, i. é., em todos os sentidos: cultural, social, existencial, político, estético. Participação nos destinos do homem e nos destinos da poesia”. O percurso poético de Oliveira Silveira projeta o poema como uma fatura sígnica cuja existência não pode se justificar apenas para servir às necessidades de certas interpretações, por mais bem-intencionadas que elas sejam.

Charqueada grande

Um talho fundo na carne do mapa:
Américas e África margeiam.
Um navio negreiro como faca:
mar de sal, sangue e lágrimas no meio.

Um sol bem tropical ardendo forte,
ventos alíseos no varal dos juncos
e sal e sol e vento sul no corte
de uma ferida que não seca nunca.

Maria Helena Vargas da Silveira (1940-2009)

Maria Helena Vargas da Silveira, contista e poeta. Nasceu em Pelotas em 1940. Graduou-se em Pedagogia pela UFRGS. De sua autoria, entre outros, destacamos: É fogo – ensaios (1987); Meu nome pessoa – poemas (1989); Sol de fevereiro – contos (1991). Publica em Nós, os afro-gaúchos (1996) quatro narrativas breves e interligadas: “De banzo”, “O bacião”, “Jacuba” e “Tia Bernarda do Ogum”.

É Fogo, seu primeiro livro, é uma narrativa de denúncia do preconceito racial nas instituições de ensino. A obra tem características documentais e autobiográficas, pois a autora transfigura fatos por ela vividos em seu tempo de escola. Maria Helena Vargas da Silveira, além de romancista de poeta, foi cronista e autora de contos e textos satíricos.

A escritora era muito atuante na área social. Além de, por exemplo, coordenar e executar trabalhos comunitários em atenção às necessidades da infância, prestou consultoria a projetos voltados para a formação continuada de professores que atuam em Comunidades Remanescentes de Quilombos. Por suas obras e trabalhos realizados junto às instâncias comunitárias, Maria Helena concorreu a vários prêmios. Em 1997, foi indicada ao troféu Zumbi. No mesmo ano venceu o concurso história de trabalho, categoria troféu Zumbi, com o conto “Conversa de Negro”. Além de troféus, recebeu diversas homenagens. Em 1995, foi patrona da feira do livro em São Lourenço do Sul. E em 2000, entrou para a Academia Pelotense de Letras.

E evocando o bacião de lata onde boiavam um por vez na espuma de sabão grosso, ela foi retirando daquela imagem a poeira efêmera de sua infância. Afinal, acordara de banzo com a saudade dos neguinhos, do tempo de come e bebe, brinca e dorme. Um banzo danado daquela época em que ignorava todos os caminhos, a não ser o do rancho; todas as defesas, a não ser o punhado de areia na cara dos que chamavam as crianças de “neguinha suja”. Um punhado de areia resolvia as diferenças. Todo mundo era igual, na cabecinha de trança da guria ou no coco rapado do guri.

Curvou-se para ralar a pedra pome na sola grossa do pé andarilho, parecendo bater cabeça para o santo, pedindo que lhe devolvesse a tranquilidade de criança. Nua, íntima, revelava seus segredos ali no banho.

Jorge Fróes

Jorge Fróes nasceu em Porto Alegre no ano de 1963, é poeta e professor. Formado em Letras e Literatura. Atravessou as décadas de 1980/90 publicando poemas esparsamente em jornais e revistas. Só em 2015 publicou seu primeiro livro Estamos quites. Participou da antologia Poetas brasileiros de 1985, Editora Shogun, da publicação Revista Negra (separata encartada na revista Porto & Vírgula); Revista Callaloo – african brazilian literature a special issue (volume 18, n° 4, outono de 1995). Revista Continente Sul Sur/IEL; e Roda de poesia (1993). De 1999 a 2001, junto com Cesar Dias, editou os cinco números do jornal Fenestra Literatura onde foram publicadas importantes entrevistas com Oliveira Silveira e Moacyr Scliar, por exemplo.

Jorge Fróes é um poeta que constrói seu percurso textual a contrapelo tanto da angústia da consagração rápida, como das relações endogâmicas que têm ordenado o sistema de distribuição de prestígio entre os escritores contemporâneos. Talvez por esse relativo isolamento e/ou por sua determinada demora no trabalho com o poema, sua poesia tenha um andamento e um feeling tão avessos à escola da fragmentação que marca, feito uma mania, parte considerável da produção poética dos seus pares. De um modo não premeditado, Fróes, com seus poemas lírico-filosofais discute a crise de e do verso contemporâneo. Contudo, o vigor do verso surgido a partir do alto modernismo segue se renovando na voz de Jorge Fróes. O olhar do poeta para o prosaico e o arrabalde, sua singular abordagem da condição negra, suas considerações contidas e irônicas frente às conflitantes visões de mundo à sua volta, revelam uma compaixão não trágica, desinteressada, que sempre se resolve e culmina, inapelavelmente, no desenho, na superfície da linguagem, enfim, nesses poemas feitos de tempo e espera.

Sinal

Os mortos entram nas lojas,
vestem as roupas, vão às danceterias.
Fazem coisas que quando vivos não faziam.

Os mortos nos acompanham.
Às vezes deitam ao nosso lado,
espiam por cima do nosso ombro.

Estando liberados dos compromissos
que os vivos ainda possuem
os mortos permanecem aqui.

Na incômoda tarefa de nos avisar
ou à espera de mais uma chance.

[Estamos quites, 2015]

Paulo Ricardo de Moraes

Paulo Ricardo de Moraes nasceu em 1959, poeta e jornalista com inúmeras publicações, entre elas se destacam o livro-objeto Negro três vezes negro (1982), com projeto gráfico-editorial de Jaime de Silva, João Cândido (1986), Revista negra (Porto & Vírgula, n. 22, agosto de 1995), e o livro de poemas Eunuco (1991). Realizador e roteirista do vídeo Da colônia africana à cidade negra.

Em um breve texto em que se auto-apresenta, isso já no encerramento de Eunuco, Paulo Ricardo de Moraes defende uma literatura negra comprometida com a luta contra a discriminação racial e define sua poesia como “a busca incansável da emoção”. Com efeito, esses princípios são coerentes com o aspecto realizável de sua poesia. Grosso modo, a poética de Paulo Ricardo de Moraes encarece mais a comunicabilidade do que o maneirismo verbal. O corolário: sua dicção envolvente, na medida em que não empreende uma fuga da emoção, acaba por reaproximar a poesia do leitor comum; seus poemas representam, por assim dizer, atualizações daquela ideia que inspirou Manuel Bandeira a escrever um poema que pudesse ser arrancado a uma notícia de jornal: essa arte de ir direto ao ponto, o quanto possível. Uma poesia sem parábolas é o que desperta o interesse de Paulo Ricardo de Moraes.

Ecos

Meu pai era preto
bebia muito
e falava pelos cotovelos
Um dia chamaram
meu pai de bêbado
e o prenderam
Hoje
eu e o filho de quem prendeu
meu pai
nos embriagamos todas as noites
porque não temos o que falar.

[Eunuco, 1991]

(*) Ronald Augusto é poeta, letrista e crítico de poesia. Formado em Filosofia pela UFRGS. Autor de, entre outros, Confissões Aplicadas (2004), Cair de Costas (2012), Decupagens Assim (2012), Empresto do Visitante (2013), Nem raro nem claro (2015) e À Ipásia que o espera (2016). Dá expediente no blog www.poesia-pau.blogspot.com  e escreve quinzenalmente no http://www.sul21.com.br/jornal/

 

fonte: https://www.sul21.com.br/colunas/ronald-augusto/2020/03/alguns-escritores-negros-gauchos-de-agora-agora-1/

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