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A vida ao lado de um homem que tem megatons de frustração represados

Nos olhos dele não há compreensão, só um pântano seco onde pulsa o rancor

A vida ao lado de um homem que tem megatons de frustração represados
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O fim será pavoroso. Mas agora prepare tudo com a ilusão que surge da ignorância. Convença-se de que você faz isso por amor. Diga a si mesma que é a maneira –adulta, racional– de as coisas retomarem seu curso, de que escutá-lo voltar para casa –o ruído emocionante da chave na porta, a forma como ele a abre, como se temesse atropelar alguém do outro lado– seja, como costumava ser, a melhor parte do dia.

Tente se lembrar de quando começou. Aquele mutismo rude que ele engendra desde as primeiras horas da manhã e que se dirige a você como um míssil sem dissimulação; aquela hostilidade que o recobre como uma névoa solta e que parece uma mensagem que tem você como destinatária: como se você tivesse feito algo repugnante, imperdoável: como se você fosse repugnante, imperdoável. Diga a si mesma, como já faz há algum tempo, que o assunto deve levar alguns meses (se pergunte se não vai levar anos e descarte de imediato o pensamento com um respingo de dor supersticiosa).

Agora, quando chega em casa, em vez de cumprimentá-la –"oi, amor!"–, diz coisas como "esqueci a maldita peça na loja de ferragens"; e quando você pergunta se tudo foi bem no trabalho, responde coisas como: “Sim. Mas discuti com o imbecil do meu irmão”. Você sente que essas palavras –maldito, imbecil– têm você como destinatária, como se fosse o centro em ebulição de uma culpa inexplicável, de uma amargura que escorre pela vida dele e a transforma em uma vida miserável.

Pense –enquanto repassa o que vai dizer: as primeiras palavras de uma conversa tranquila– que ele está há muito tempo vivendo em um tom baixo, apagado, mergulhado em algo que poderia ser melancolia– por um motivo que você desconhece –ou repulsa (por algo em que ele não quer pensar: pela forma como você não é mais a garota despreocupada que ele conheceu, mas essa mulher hiperativa que sempre parece saber o que fazer e como, e julga o que ele faz como se fosse dona de um conhecimento superior?). Todas as manhãs, quando você sai para o trabalho –um trabalho que te agrada, mas que às vezes faz você se perguntar se não será essa a fonte do problema: sua vida de fêmea genial ao lado de um homem que tem um emprego anódino, megatons de frustração represados–, ele se despede com uma alegria que se assemelha ao alívio (alívio de não vê-la por um tempo?), e você desaparece no elevador com um gesto de submissão e súplica (sem saber a quem se submete ou suplica o quê) . Às vezes, ao longo do dia, trocam mensagens e paira entre vocês um carinho que parece sincero, mas que, quando voltam a se ver, se liquefaz como o corpo de um pássaro escravizado sob uma corrente de ácido.

Termine de preparar um jantar simples. Receba-o sem dar sinais de nada. Escute, em seu cumprimento, essa queixa filha da irritação com que desta vez ele diz: "Meu velho deixou cair o celular e a tela quebrou". Diga, tirando a importância disso: "Bem, sempre se conserta". Quando ele responder "estou cheio disso", escute: "estou cheio de você". Sirva o jantar, comente coisas sem importância. Procure dentro de si as primeiras palavras sensatas que você preparou durante dias. Diga-as em um tom que parece amável e caloroso. Veja como de repente ele presta atenção. Sinta crescer dentro de si o otimismo necessário para seguir em frente. Escute a si mesma dizendo frases prolixas (detecte nelas palavras como "antes", "eu não entendo", "eu preciso"; diga a si mesma que tem que evitá-las; não faça isso). Veja como ele cruza os talheres no prato (escute uma voz que diz: "Chega, não diga mais nada", mas não pare). Solte as amarras. Convença-se de que este é o momento de deixar tudo jorrar, de abrir as comportas. Diga-lhe que a atitude dele a magoa (pense: "Não! Ele não é seu cúmplice, não vai cuidar de você"). Veja como ele olha para o prato com um distanciamento animal. Sinta, subitamente, sinta que tudo o que você diz exala uma superioridade na qual você não se reconhece. Pense: “Esta não sou eu. Eu não faço essas coisas.” Mas não faça caso da intuição lamurienta que sussurra que você está sendo patética. Continue. Quando acabar, pergunte: “O que está pensando?”. Olhe para ele. Veja que nos seus olhos não há compreensão, somente um pântano seco onde pulsa o rancor. Escute como ele diz: “Sinceramente? Tenho medo de você”. Entenda que ele sente –sabe– que você arruinou a vida dele. Que você é o inimigo.

 

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