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Viradouro homenageia “primeiras feministas do Brasil” e é campeã do Carnaval 2020 no Rio

Com o enredo ‘De Alma Lavada’, escola de samba homenageou As Ganhadeiras de Itapuã, histórico grupo musical de mulheres na Bahia que trabalhavam para comprar alforrias no século XIX

São Paulo - 26 FEB 2020 - 19:01BRT - EL PAÍS
 
Integrantes da Viradouro durante o desfile na Sapucaí.
Integrantes da Viradouro durante o desfile na Sapucaí.RICARDO MORAES / REUTERS (REUTERS)

Ao levar a Bahia ao Sambódromo do Rio de Janeiro, a Unidos do Viradouro consagrou-se, nesta quarta-feira, campeã do Carnaval carioca. Assinado pelo casal de carnavalescos Tarcísio Zanon e Marcus Ferreira, o enredo De Alma Lavada homenageou o grupo musical baiano As Ganhadeiras de Itapuã, que faz samba de roda, para abordar o protagonismo feminino na história brasileira. A Vermelho e Branco de Niterói, como é conhecida a Viradouro, volta a levar o título depois de 23 anos —no ano passado, foi vice-campeã com um enredo sobre histórias encantadas—. A escola deixou para trás a Grande Rio, em segundo lugar, seguida de Mocidade, Beija-Flor, Salgueiro e Mangueira. União da Ilha e a Estácio de Sá foram rebaixadas ao Grupo de Acesso em 2021.

O enredo da Viradouro já havia vencido na terça-feira (25/02) o Estandarte de Ouro —premiação de voto popular do jornal O Globo—. “A nossa vida mudou com esse desfile, não só pela mídia, mas pelo nosso próprio autoconhecimento. Nós entendemos que representamos milhões de mulheres que lutam todos os dias pela sobrevivência. Há um crescimento social nisso”, comentou Ivana Soares, produtora da banda As Ganhadeiras de Itapuã ao jornal baiano Correio.

Com alegorias e fantasias luxuosas, a Viradouro foi uma das escolas que mais animou o público da Sapucaí, desde a comissão de frente, que trouxe uma atleta no nado sincronizado, Anna Giulia, como uma sereia em um aquário de sete mil litros de água. A ala das baianas, que representaram quituteiras, com saias bordadas com abarás, acarajés e tapiocas, jogou cocada para a arquibancada.

Com influência do afoxé, ritmo baiano de matriz africana, nos batuques e na melodia, o samba da escola campeã cantou as mulheres escravizadas de Salvador, que, no século XIX vendiam comida e lavavam roupas na lagoa do Abaeté e, com o dinheiro arrecadado, compravam sua própria alforria e a de outras mulheres. Dessa história nasce o grupo d’As Ganhadeiras de Itapuã. Elas foram exaltadas no desfile como as “primeiras feministas do Brasil”.

A Viradouro conquistou público, críticos e jurados ao aliar uma forte tradição cultural, com referências à ancestralidade negra, à atualidade de questões feministas. Foi uma lavada de alma e de bom gosto. Com a proposta de dar um mergulho na Lagoa do Abaeté e no mar de Itapuã, a Viradouro homenageou Oxum, tocando um ijexá —com um atabaque gigante no meio dos ritmistas— em diversos momentos do desfile. “Oh mãe, ensaboa, mãe”, cantava junto com a escola a arquibancada da Sapucaí.

A Viradouro também mostrou a transformação dos terreiros em ateliês onde as mulheres realizavam manufaturas e fez um passeio pelas manifestações folclóricas que influenciaram o surgimento d’As Ganhadeiras de Itapuã. O desfile foi encerrado com o setor Os tesouros do Brasil, que homenageou outros grupos folclóricos formados por mulheres.

fonte: https://brasil.elpais.com/cultura/2020-02-26/viradouro-homenageia-primeiras-feministas-do-brasil-e-e-campea-do-carnaval-2020-no-rio.html


As Ganhadeiras de Itapuã comemoram título da Viradouro no Carnaval carioca

Correio24horas
 
Dezenas de pessoas se reuniram em Itapuã para celebrar vitória e entoar samba-enredo

Parecia uma sucursal da quadra da escola de samba Unidos da Viradouro. Em Itapuã, mais precisamente no Bar da Tina, a emoção foi grande para comemorar o título de campeã do Carnaval carioca, que homenageou o grupo baiano As Ganhadeiras de Itapuã.

Com o samba enredo na ponta da língua, e um carro de som na rua para ajudar, a galera se juntou no local desde cedo, para acompanhar a apuração, no início da tarde desta quarta-feira de Cinzas. Apesar do nevorsismo, a  esperança da vitória era grande, ainda mais depois do Prêmio Estardarte de Ouro, do jornal O Globo, considerado um ótimo termômetro do desfile. "Nós merecíamos esse presente, Itapuã merecia", disse Dona Lucinha ao microfone, que participou do desfile no Rio, e no Carnaval de Salvador se apresentou nos bairros de Itapuã e da Liberdade junto ao grupo.

As Ganhadeiras de Itapuã comemoram vitória da Viradouro (Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

Dona Mariinha, 85 anos, outro patrimônio do grupo, disse que só não chorou com a vitória porque não é de chorar. Mas não parava de agradecer. Ela, que também  esteve no desfile no domingo, vai voltar com um grupo para o desfile das Campeãs, neste fim de semana. A expectativa é que a comitiva supere as 30 pessoas que viajaram na semana passada. "Está todo mundo emocionado, não tem como ir menos", aposta Salviano Filho, diretor administrativo e artísitico do grupo.

Mariinha contou que perdeu a filha Solange há oito meses, quando os carnavalescos da Viradouro anunciaram a homenagem. Mesmo desanimada, a comunidade manteve o desfile à pedido de Solange, como uma maneira de levar a história de luta das baianas para o mundo.

"Isso é por ela, e para ela. Depois que ela faleceu, perdemos o brilho, não queríamos nem mais desfilar. Mas foi ela mesmo quem nos incentivou a todo tempo, e nos disse que íriamos ganhar", lembra Ana Lúcia, amiga pessoal de Solange e ex-moradora do bairro.  

Ana Lúcia foi uma daquelas que preferiu evitar ficar na frente da TV na hora da apuração. No Bar da Tina, foram duas, instaladas na varanda. "Trouxe de casa sem minha esposa ver", confessou Paulinho do Apito, que no próximo dia 14 promove uma festa em homenagem às Ganhadeiras de Itapuã na Rua Alto da Bela Vista, a partir das 17h. "Essa vitória é motivo de orgulho para elas, e para o bairro. Itapuã é um bairro que luta pela cultura, e assim como tantos outros na cidade, é pouco visto", continuou Paulinho.

O sentimento de realização era geral. "Estou feliz para caramba hoje, tem gente que não liga para cultura do bairro, mas ela precisa ser mais valorizada. Ela é muito forte, e nos proporciona presentes como esse", comentou o músico André Barará, que  deixou de tocar no Carnaval para assistir ao desfile no domingo. "Não aguentei, fiquei muito emocionado, mandava vídeo para todo mundo, fiquei igual a pinto no lixo", recorda.

Dezenas de pessoas se reuniram no Bar da Tina da apuração até a comemoração, que invadiu a noite (Foto: Tiago Caldas/CORREIO)

Com o enredo De Alma Lavada, a escola destacou o protagonismo feminino na história brasileira, a partir da história das baianas, descendentes de mulheres escravizadas que lavavam roupa na Lagoa do Abaeté e faziam outros serviços na capital baiana para comprar a alforria. Além de visitas ao bairro, nas quais entrevistaram moradores e as integrantes do grupo, os carnavalescos também usaram a pesquisa de doutorado em etnografia musical da professora Harue Tanaka, desenvolvida na Universidade Federal da Bahia. Este é o segundo título da Viradouro,  que só havia vencido o Grupo Especial do Rio em 1997. 

Quando eles estiveram aqui, saíram dizendo que nossa história rendia não só um, mas três carnavais, tamanha é a força e importância da nossa história - Salviano Filho, diretor administrativo d'As Ganhadeiras de Itapuã


Em segundo lugar, com mesmo número de pontos, ficou a Grande Rio, que homenageou o pai de santo baiano Joãozinho da Gomeia. O desempate foi no quesito evolução. 

O samba da Viradouro teve influência do afoxé, e o desfile contou com participações da cantora Margareth Menezes, que saiu como destaque do carro que lembrou as cirandas de roda à beira do mar aberto; e da dançarina Lore Improta, que viveu a Rainha do Carnaval de Itapuã.

O desfile mostrou atividades que as Ganhadeiras exerciam como lavar roupa, carregar e vender água, cozinhar e vender alimentos, fez referências à Lagoa do Abaeté,  à liderança negra Luiza Mahin e ao bloco afro Malê Debalê. Ao público, foram oferecidas cocadas.

 

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