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Mulheres migrantes em tempos de coronavírus, 8º episódio

Por *María Rojas Arias, em colaboração a MULHERES EM MOVIMENTO.14/09/20 às 17H50- Folha de Pernambuco

 

Mi Abuela también era Anarquista é o título de um projeto que retomou uma força avassaladora durante esta pandemia. Comecei a trabalhar nele há um ano, nas montanhas de um povoado colombiano chamado Santa Teresa, terra de minha avó (mi abuela) materna Laurentina ou Aura, como preferia ser chamada. E foi nesse mesmo povoado que, 90 anos antes, teve origem a primeira guerrilha da América Latina, chamada Los Bolcheviques del Líbano Tolima. O episódio, ocorrido a 19 de Julho de 1929, refere-se à tentativa de um grupo de sapateiros de realizar uma revolução radical para mudar as relações de classe e de propriedade no país. A tentativa de revolução durou apenas um dia e dela não há registros.

Este projeto começou quando eu soube desse evento histórico em meu país; mas que, apesar disso, não se encontra incluído nos relatos do conflito armado em Colômbia. Assim, fiz um filme, intitulado Abrir Monte, cuja estréia acontecerá ainda em 2020. O processo de construção deste filme me levou a uma busca de vozes femininas dentro dos relatos das revoluções, das lutas sociais e das guerrilhas que, na maioria dos casos, são registradas a partir da figura masculina. Ao realizar este filme, descobri que minha avó Aura foi uma mulher anarquista. 

O processo deste projeto previa, inicialmente, uma peça de teatro expandido, onde trabalharia com as mulheres que conheci durante a elaboração do filme Abrir Monte, criando uma encenação que incluiria as suas histórias e loops de filme em 16mm. 

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Em julho de 2019, realizei um processo de residência artística em MANTA, sediada em San Martin de los Andes, Argentina. Lá conheci Maria Lujan, Claudia Laucher e Monica Naon. Com elas comecei a perceber que este projeto não tratava apenas de uma ideia da violência histórica na Colômbia. Senti que ele se faria como uma irrupção nessa linearidade que foi inscrita no corpo e na mente do feminino em relação às histórias dos territórios.

Mi Abuela también era Anarquista tem o coração na América Latina, mas razões vinculadas à pandemia me forçaram a mudar os planos de regressar aos territórios de minhas origens. Isto, por sua vez, ampliou o projeto para uma perspectiva de encontro com outras miradas e historietas de mulheres que conheci durante este período de pandemia em Portugal. Pessoas que encarnam esse espírito livre e de força feminina que me motivou, um ano atrás, a dar início a este projeto na Colômbia. 

Cheguei a Lisboa em fevereiro deste ano, logo depois de apresentar o filme Abrir Monte no Programa de Encontros Berlinale Talents, organizado pelo Festival de Cinema de Berlim, e para o qual havia sido convidada. Aqui estaria somente até maio - o tempo máximo da permissão obtida para permanência na zona europeia. O plano em Lisboa incluía reuniões de trabalho e encontros com amigos que vivem aqui. A covid-19 confirmou silenciosamente o meu estatuto de imigrante latino-americana na Europa. O regresso à Colômbia tornou-se uma tarefa quase impossível e muito custosa. Apesar de não poder regressar, o meu coração e a minha força de trabalho continuaram a estar conectados aos projetos que eu já estava realizando na Colômbia. 

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Agora, como primeira instância, o projeto é uma série de 6 micro filmes. Mi Abuela también era Anarquista transita pela memória dos afetos. Os encontros em Lisboa, com Márcia, Lola e Jacira,  e na Colômbia, com Clara, Lilia e Adela, possibilitam a criação de um arquivo vivo das mulheres que, na minha vida, representam esse espírito de luta, rebelião e força, que é a minha avó para mim. É um gesto que ilumina, a partir das narrativas do cotidiano e do íntimo, as revoluções. Este é um ato de gratidão, e um sinal de que a memória tem a ver com justiça, porque dar a todas as mulheres o lugar que lhes cabe no tecido dos acontecimentos é revolucionário. 

Com este projeto pude recordar que a memória está no sangue e no território, que mesmo estando longe, o corpo carrega-a como um arquivo de afetos. Este é também um encontro entre gerações, por onde nós, jovens, estamos a regressar às memórias dos nossos antepassados e ao que foi escrito sobre elas [as memórias], e também ao que não tinha registro. Sempre com a intenção de não repetição dos atos de barbárie. Sinto-me parte de uma geração de jovens na Colômbia que não estamos satisfeitos com um discurso repetido em looping que justifica operações de guerra e morte em nosso território. 

Sabemos que os espaços de registro da nossa História têm estado nas mãos de poucos. O arquivo oficial é violento, e isto se afirma a cada vez que é consultado: há uma imagem clara de silêncio. O silêncio daqueles que não podiam falar. O silêncio dos que foram calados. E neste período acidental em Portugal também vivenciei que muitas dessas violências estão presentes não só na Colômbia, mas num registro global, e o que muitos de nós estamos a fazer é caminhar na direção da possibilidade de enfrentá-los a partir de uma experiência crítica que confronta as informações oficiais.

Estamos regressando a esse arquivo violento - que é fechado e declarado como única verdade - para salientar os espaços ausentes; que foram contados a partir de uma só voz. A minha relação com o arquivo é atravessada transversalmente pelo resgate do arquivo de afetos, de diferentes histórias, das sensações, as histórias que são transmitidas a partir da oralidade, as narrativas que fazem referência a acontecimentos históricos, as metáforas destes que foram apropriadas para dar valor e continuidade à persistência de querer continuar aqui neste território.

O arquivo dos afetos propicia o encontro.

*Maria Rojas Arias, artista visual e cineasta colombiana, é co-diretora de La Vulcanizadora Laboratório de Projeto em Artes Visuais, Cinema e Teatro Expandido sediado em Bogotá.

+info: 

www.mariarojasarias.com

www.lavulcanizadora.com

Fotos: 

1) Minha avó anarquista, Laurentina Fajardo. Arquivo familiar.

2) Adelaida Arias na Quebrada Piedras Blancas. Libano, Tolima. Cidade localizada no sudoeste da Colômbia. Foto de Maria Rojas Arias. 

3) Cena no Teatro San José (San Martín de los Andes, Argentina) 2019, MANTA Residencia. Na foto: Claudia Lauscher e Maria Rojas Arias. Foto de Andrea Cosentino. 

A editoria da série “Mulheres migrantes em tempos de coronavírus – Um caleidosópio de experiências” é da jornalista e pesquisadora Márcia Larangeira, a quem Mulheres em Movimento agradece a parceria.

fonte: https://www.folhape.com.br/colunistas/mulheres-em-movimento/mulheres-migrantes-em-tempos-de-coronavirus-8o-episodio/20295/

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