O “Caso Network” na Rússia: tortura, confissões forjadas e repressão

 

Em um escandaloso erro judiciário, um grupo de jovens ativistas de esquerda, na Rússia, recebeu pesadas sentenças de prisão por falsas acusações de terrorismo após confissões sob tortura. O Estado russo está tentando intimidar os dissidentes, mas não terão êxito. Solidariedade aos presos políticos!

Em 10 de fevereiro, na cidade de Penza, um grupo de ativistas antifascistas foram considerados culpados com sentenças de prisão entre 6 e 18 anos. Esses processos escandalosos são a conclusão do “Caso Network”¹ ou o “Caso de Penza”, que começou há mais de dois anos, em outubro de 2017. O Serviço Federal de Segurança da Rússia acusou o grupo de formação de uma organização terrorista, que estaria planejando a realização de um ataque e a desestabilização da situação na Rússia.

O primeiro a ser preso foi Egor Zorin, que mais tarde “confessou”. Segundo um informe não confirmado, seu testemunho se tornou a base do “Caso Network”. Subsequentemente, o caso contra ele foi arquivado. Em janeiro de 2018, Victor Filinkov e Igor Shishkinin foram presos em Leningrado; e, em abril, Yulia Bojrshinova foi presa. O caso dos antifascistas de Leningrado é considerado separadamente.

Confissões obtidas sob tortura

De acordo com numerosos testemunhos (que, naturalmente, o tribunal se recusou a anexar ao caso), as confissões dos detidos foram obtidas através de tortura (choques elétricos e espancamentos) e ameaças da polícia secreta. São poucos os que podem tolerar horas de tortura, mas apesar desse tratamento sádico, a maioria das vítimas se recusou a caluniar seus camaradas e não se declararam culpados. Posteriormente, eles refutaram a confissão que o acusado deu sob tortura. Só Igor Shishkin (sentenciado a 3 anos e meio de prisão em janeiro de 2019), Arman Sagunbaev (sentenciado a 6 anos de prisão) e Egor Zorin (que se tornou testemunha) foram considerados culpados.

Os antifascistas informaram à mídia, ao tribunal e às organizações de direitos humanos sobre as torturas que tiveram que enfrentar, mas a promotoria se recusou a considerar esses testemunhos como parte do caso. O seguinte relato de um dos acusados, Dmitry Pchelinzev, foi reportado em Media Zona:

“Eles tiraram minhas meias e puxaram minhas calças e cueca até os joelhos para prender os fios em meus órgãos genitais. Um tipo de boné ajustável foi colocado em minha cabeça, preso sob o queixo. Enrolaram fios em torno de meus dedões do pé. Tentaram colocar uma mordaça em minha boca. Mas não a abri, porque a mordaça estava envolvida em fita adesiva. Da última vez, alguns de meus dentes ficaram machucados com a mordaça. Durante todo o processo, quase não falamos. Quando paravam de me bater no rosto e no estômago, davam-me choques elétricos.

“O contato estava ruim, então o choque elétrico era fraco. Disseram-me depois de mais alguns choques elétricos: ‘Você vai retirar o seu testemunho. Você vai dizer que mentiu sobre a tortura. Você vai fazer o que o investigador pedir. Se eles apontarem para branco e disserem preto – você diz preto. Se eles disserem: corte o seu dedo e o coma – você vai comê-lo’. Então, me deram vários choques para garantir que eu ia me lembrar”.

Por que as autoridades precisam falsificar os fatos? Será que não têm crimes reais para investigar? Há mais do que o suficiente, mas precisam mostrar trabalho. No “Caso Network”, a principal evidência apresentada foram confissões dadas sob tortura. Os oficiais do Serviço Federal de Segurança estão em busca de qualquer pretexto para avançar em suas carreiras: eles recebem ordens de cima e sabem o que seus chefes esperam deles. Parece que as autoridades estão fazendo tudo o que podem para intimidar e silenciar qualquer um que discorde de sua atual política. Os acusados de crimes políticos têm pouca chance de serem libertados. O juiz do Tribunal Regional de Penza gastou apenas 23 minutos para dar o veredito – oferecendo apenas a introdução e a resolução, mas não a motivação, o que significa que ele não examinou a substância da acusação.

Solidariedade com os presos políticos!

Foto: International Anarchist Defence Fund

A despeito das campanhas de solidariedade e do clamor público, a conclusão do “Caso Network” era em grande parte previsível. As autoridades adotaram o método do “chicote”. Quanto mais claramente o governo mostrar o seu “poder” (e a ausência de qualquer princípio de justiça em seus órgãos punitivos), menos pessoas se engajarão na oposição aberta a sua política social. Mas o governo está cometendo erros básicos. Quanto mais repressão as pessoas enfrentarem dessa quadrilha capitalista, maior será a resistência a essa pressão – embora, no momento, estejamos vendo apenas os movimentos iniciais.

Muitas pessoas que não são politicamente ativas estão se juntando aos protestos como resultado da raiva que borbulha na superfície. O “Caso Network” é uma pequena vitória da máquina estatal de repressão e uma grande tragédia para os acusados e seus parentes, mas também demonstra que, enquanto as massas estiverem distantes da política, as coisas só podem piorar. Só existem dois caminhos a seguir: submeter-se à bota da repressão do Estado burguês ou unir-se para lutar por um mundo melhor.

Certamente, esse não será o último caso judicial fabricado na Rússia. Nesses tempos difíceis, devemos nos apoiar mutuamente. Devemos participar das ações de solidariedade aos presos políticos em nossas cidades, espalhar a informação na mídia social e continuar levantando demandas sociais. Eles querem que os dissidentes fiquem intimidados e calados. Em resposta, devemos elevar nossas vozes!

No pasarán!

A lista das vítimas do “Caso Network”:

Ilia Shakurski: 23 anos de idade – 16 anos de prisão e 50.000 rublos de multa

Vasili Kuksov: 31 anos de idade – 9 anos de prisão

Dmitry Pchelinzev: 27 anos de idade – 18 anos de prisão

Andrei Chernov: 30 anos de idade – 14 anos de prisão

Mikhail Kulkov: 25 anos de idade – 10 anos de prisão

Maxsim Ivankin: 25 anos de idade – 13 anos de prisão

Arman Sagunbaev: 27 anos de idade – 6 anos de prisão

Nota:

¹ The Network ( “A Rede”, em português) é o nome que os investigadores impuseram ao suposto grupo formado pelos acusados. Todos afirmaram que tal organização não existe.

 

fonte: https://www.marxismo.org.br/o-caso-network-na-russia-tortura-confissoes-forjadas-e-repressao/