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A Farsa a Jato e a dupla moral da direita

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As pessoas identificadas com posições políticas de direita tendem a veicular um discurso e uma visão bastante moralista do mundo. A direita tende a defender o que seriam valores eternos, absolutos, pretensamente universais, dogmáticos, tendendo à intolerância em relação àqueles que possuem valores diferentes dos seus, normalmente estigmatizados e detratados como se fossem a encarnação do mal. Isso se agudiza quando estamos diante de uma direita religiosa, católica ou evangélica, que pretende possuir o direito universal ao julgamento e condenação daqueles que levam vidas diferentes da que consideram ser a correta. O moralismo cristão leva à intolerância religiosa e ao desprezo pelas minorias sociais e comportamentais, julgadas e condenadas como representantes do diabólico na terra. O discurso moral tende a ter essa pretensão de apontar valores que deveriam ser seguido por todos, de estabelecer regras a que todos devem obedecer e, por isso mesmo, o moralismo tende a ser excludente em relação a quem possui uma visão alternativa de como deveria ser o mundo, a ordem social, a vida humana.

Um dos temas centrais no discurso da direita brasileira, um dos temas recorrentes em suas diatribes públicas, é o discurso de combate à corrupção. Discurso, quase sempre, profundamente hipócrita, já que boa parte das pessoas que professam posições de direita convivem com ou praticam a corrupção, traço, afinal, que atravessa todos os grupos e extratos da sociedade brasileira e que é um elemento estruturante da própria ordem capitalista, tal como ela se configurou em nosso país. O discurso de combate à corrupção sempre é acionado quando as elites brasileiras se veem contrariadas por governos e grupos políticos que não atendem a todos os seus privilégios, que cobram, de alguma forma, a contribuição dessas elites para as melhorias do país, e principalmente, quando de excepcionais governos no país que olharam para além desse pequeno grupo dominante. Como verdadeiros sepulcros caiados, nesses momentos, gente que fez fortuna com a corrupção, que se locupletou de negociatas com o Estado, que assaltou os cofres públicos, que enriqueceu às custas de práticas não republicanas, aparecem como paladinos da moralidade pública, como baluartes dos bons costumes, como representando o lado do bem contra o mal. No processo que levou ao impeachment da presidente Dilma, talvez por ser a mais honesta ali e intolerante com a corrupção, vimos os moralistas sem moral desfilarem às pencas nas praças públicas, irem às ruas gritarem contra a corrupção, se fantasiarem de homens e mulheres probos e honestos, aparecerem na mídia, também ela totalmente conivente e partícipe da corrupção (a Rede Globo não me deixa mentir), como promotores de uma limpeza na vida política nacional. A patranha de culpar o PT por toda a corrupção existente na sociedade brasileira, de fazer de seus erros e do comprometimento de alguns de seus quadros com a corrupção, serviu apenas para a consecução do golpe que afastou a esquerda do poder, objetivo único e verdadeiro em toda essa trama farsesca.

As revelações pelo portal The Intercept Brasil das ilegalidades e conspirações da operação Lava Jato, um dos principais agentes da trama golpista, rebaixada à condição de operação Farsa a Jato, tem deixado claro a dupla moral, a falsidade do discurso moralista da direita brasileira. Está ficando claro que a direita só enxerga pecados no outro lado do espectro político, que a corrupção nossa de cada dia é bem-vinda desde que seja praticada pelos deles, e não pelos inimigos. Só é corrupção quando é praticada pelo adversário. O escandaloso conluio entre um juiz de primeira instância, procuradores, policiais federais, grupos de mídia e forças político-partidárias vem sendo relativizado e até defendido por aqueles que só sabem chamar os outros de ladrão e de corrupto. A matilha bolsonarista, tão afiada em atacar e destruir reputações, de repente se tornou um agrupamento de Polianas, uma reca de cegos e surdos, defensores do indefensável. O falso moralismo nunca ficou tão explícito, o uso do discurso moral como arma política nunca foi tão escancarado. Fica claro que o vale tudo sempre foi a moral dessa gente desde que suas posições, ideias e desejos prevaleçam. Todas as peripécias da Farsa a Jato, antes mesmo dessas revelações, já deixavam claro que a moralidade dessa gente é moralidade de ocasião. O apoio que um corrupto descarado como Eduardo Cunha recebeu, só porque estava comandando o processo de impeachment que a direita via como única forma de alijar o PT do poder, já demonstrava a verdade sobre esse discurso anticorrupção, oportunista e de ocasião. Até quem hoje se escandaliza e aparece na mídia como crítico da organização criminosa em que se transformou a chamada Força Tarefa da Farsa a Jato, não corou e não titubeou diante de conduções coercitivas e prisões ilegais, torturas psicológicas e indução a delação, perseguição explícita à defesa dos réus, divulgação de escutas telefônicas ilegais e de conversas privadas, vazamentos constantes de informações de processos que corriam em sigilo, já que esses procedimentos à margem da lei e da Constituição estavam servindo ao único e verdadeiro objetivo dessa investigação: levar a direita novamente ao poder, já que ela não conseguia através do voto. Até as instâncias superiores do Judiciário, incluindo o Supremo Tribunal Federal, fechou os olhos e endossou as estrepolias da Farsa a Jato, tudo em nome do pretenso combate a corrupção.

Agora fica cada vez mais claro que a Farsa a Jato perseguiu desde o começo objetivos políticos e não combater a corrupção. Se ela teve e tem o apoio maciço da direita se deve a seu claro viés político, se deve ao fato de que os homens que a compuseram eram homens de direita, buscando destruir politicamente as forças de esquerda no país. Os verdadeiros corruptos, os maiores deles, estão nas ruas, livres, desfrutando das fortunas mal adquiridas que sequer lhes foram retiradas. Os grandes corruptos da Petrobras logo fizeram acordos de delação e foram para casa, enquanto o ex-presidente Lula, contra o qual nada conseguiram provar, permanece preso há mais de um ano, condenado por motivos indefinidos, tendo como suporte probatório um artigo de jornal e uma delação de um réu envolvido no mesmo processo e que foi mantido preso até quando incriminou o ex-presidente, sem que tenha apresentado uma única prova a sustentar o que disse. Fica claro que o apoio que a direita dá à operação Farsa a Jato nada tem que ver com o desejo de ver o país moralizado, mas sim porque essa operação levou a direita ao poder novamente. A isso também se deve o comportamento de amplos setores do judiciário, do Ministério Público, da Polícia Federal em apoio às medidas, muitas vezes ilegais, dessa operação. Essas instituições abrigam um número elevado de pessoas identificadas com posições de direita e de extrema-direita, suas ações em apoio a Farsa a Jato, tem clara conotação ideológica e política. As ações de juízes como Luiz Fux (In Fux we trust, disse Moro), Carmem Lúcia ou Luís Roberto Barroso tem claro direcionamento político, tendo se notabilizado pela parcialidade e pela afronta até aos mais básicos direitos humanos, motivados pela sanha de afastar a esquerda do poder.

Os personagens que capitanearam a Farsa a Jato encarnam bem esse moralismo hipócrita de amplos setores da direita no país. O discurso moralista do juiz Sérgio Moro não se sustenta diante de suas ações ao arrepio das leis e da Constituição. Apanhado em flagrante delito desfila a sua cara de pau na mídia e no Congresso Nacional alegando ser vítima de uma conspiração. Brada por justiça e legalidade diante do que seria um crime de um pretenso hacker, fala em violação da privacidade, de crime contra a liberdade de expressão, tudo o que ele não parou de cometer esses anos todos. Sua parcialidade política nunca foi sequer disfarçada ao trocar gentilezas e sorrizinhos com gente como Aécio Neves, um investigado na própria vara que presidia, ao aparecer ao lado dos golpistas de 2016, demonstrando intimidade e satisfação, mesmo que muitos deles estejam acusados de inúmeros crimes de corrupção. E se tudo isso não fosse suficiente, sua clara leniência em apurar casos envolvendo membros do PSDB, partido do qual seu pai foi fundador no Paraná, e a aceitação escandalosa do cargo de Ministro da Justiça do governo Bolsonaro, após condenar e manobrar de todas as formas para que seu principal adversário, o presidente Lula, fosse preso e sequer pudesse dar entrevistas durante o processo eleitoral, demonstra que toda a sua atuação teve fins e objetivos políticos, fato que toda a direita também sabe, mas se finge de desentendida, pois a ela interessou e interessa que ele atuasse assim.

Os procuradores da República que atuam na operação Farsa a Jato nunca esconderam suas preferências político-partidárias, as gravações recentemente reveladas só confirmam o que já se sabia. Setores do Ministério Público atuaram para retirar o PT do poder e impedir a sua volta nas últimas eleições, inclusive os dois últimos Procuradores Gerais da República. A senhora Raquel Dodge continua referendando e participando da perseguição política ao ex-presidente Lula, opinando no sentido de que o STF denegue o pedido de suspeição da atuação do juiz Sérgio Moro, o que nessa altura dos acontecimentos é verdadeiramente constrangedor e escandaloso. Membros da Polícia Federal usaram os carros da instituição para desfilarem nas passeatas pelo impeachment, mesmo ainda sob a autoridade da presidenta Dilma. Vasculharam a vida e o apartamento do presidente Lula e de seus filhos, nada encontrando, mas nunca vieram a público desmentir todas as calúnias e as fake news espalhadas pelos grupos e robôs da direita na internet, sobre imaginárias fortunas e empresas dos filhos do presidente. Sem que nunca tenha sido achada uma coisa roubada de posse de Lula e dos seus, sem que tenha se achado um tostão que ele não possa provar a origem, mesmo que os imóveis atribuídos a ele tenham donos com documentos legais comprovando a propriedade, o ex-presidente continua a ser chamado de ladrão por uma direita que não consegue falar bem de seus representantes, que não consegue mostrar algo que tenham feito pelo país. A moralina dessa gente cheira mal pois só vê fedor no rabo alheio. Diante do desastre administrativo que é o governo Bolsonaro, o governo que elegeram, como não têm nada de positivo a dizer sobre essa catástrofe que se abateu sobre o país, se apoiam na pretensa fúria moralista a chamar de ladrão, de corrupto, os adversários, como se isso escondesse a corrupção dos seus representantes e a inépcia político-administrativa do mito bizarro que levaram a presidência.

Desde que se iniciou o governo Bolsonaro, o governo da direita, que o discurso moralista de combate a corrupção faz água por todos os lados. Flagrado envolvido em verdadeiro laranjal, com funcionários fantasmas e laranjas para todos os lados, seu envolvimento com milicianos com muitos crimes, inclusive de morte nas costas, as candidaturas laranja de seu partido, o enriquecimento a jato de sua família, ministros envolvidos em casos de corrupção, Bolsonaro vai, cada vez mais, por mais patético que possa parecer, se apoiando no discurso moralista que o elegeu. Suas pretensas convicções cristãs e evangélicas vão sendo cultivadas ao mesmo tempo que libera a posse e o porte de armas, que publica gold shower na internet, que apoia a tortura e acaba com todas as políticas sociais. O moralismo evangélico convive com o uso das igrejas para a lavagem de dinheiro do crime das milícias e do jogo do bicho, com o enriquecimento de suas lideranças às custas da exploração da fé e da carência dos mais pobres, com a hipocrisia de homens que não fazem o que pregam em seu dia a dia. Comparecendo a Marcha para Jesus, evento evangélico pensado como um contraponto moralista à Parada Gay, Bolsonaro posou sorridente ao lado de casal de pastores presos transportando dinheiro ilegal em meio a uma Bíblia, e não se furtou, no momento mais cândido e de elevada fé, fazer um simulacro de armas com as mãos, no que foi acompanhado pelos ministros de Deus (sic). Acho que o único que não compareceu a Marcha para Jesus foi o próprio, escandalizado com a dupla moral de seus seguidores, verdadeiros sepulcros caiados, como um dia ele nomeou os fariseus. Jesus que disse vir nos oferecer mais vida é cultuado por gente que só trabalha na direção da morte (liberando o uso de armas, retirando a sinalização nas estradas, dispensado o uso da cadeirinha nos carros para transporte de crianças, liberando centenas de marcas de agrotóxicos, fazendo vistas grossas para o desmatamento e o assassinato de indígenas e camponeses, incentivando a violência contra os ditos bandidos, acabando com a política de combate a homofobia e ao racismo, desmontando as políticas de combate a fome, as políticas de saúde como o fim do Mais Médicos, acabando com a política de valorização do salário mínimo, destruindo milhões de empregos, fazendo uma reforma da previdência onde a maioria morrerá sem se aposentar). No lugar disso tudo o que têm a oferecer é o discurso farisaico e hipócrita de defesa da família, de combate à ideologia de gênero, de defesa de uma escola sem partido, de erradicação do marxismo cultural e do comunismo, discurso vazio, de caça a fantasmas e a fantasias de uma direita delirante, sem projetos para o país, além do mantra genérico do fim da corrupção e da defesa dessas platitudes que não enchem a barriga de ninguém (aliás, enchem, a de alguns espertos que se locupletam dessa mixórdia ideológica barata).

A defesa das ações ilegais e imorais de Moro, de Dallagnol, de Bolsonaro, desmascara de vez a falsa moral do discurso de direita no Brasil. Seu oportunismo e hipocrisia ficam demonstrados sobejamente. Quem acreditou sincera e ingenuamente nessa gente, nessa grande farsa montada a partir da orientação e interesses do Departamento de Estado norte-americano, deve estar enojado de ver o grau e a capacidade de manipulação que as pessoas que dela participavam e os meios de comunicação que a eles apoiavam dispõem em nossa sociedade. Os bolsominions, por outro lado, são tão patéticos a ponto de exigir que o que eles chamam de hacker obedeça a lei, mas não cobram o mesmo de um juiz, de promotores, de policiais, de jornalistas. Como sempre, ao não terem discurso ou argumento para rebaterem os fatos, tentam como faz os próprios envolvidos, atacarem a honorabilidade do jornalista que está divulgando os estarrecedores eventos. O falso moralismo usa a homofobia para tentar desqualificar o jornalista tentando assim desqualificar a mensagem. Usam a xenofobia para desmerecer o que ele publicou, atribuindo ao fato de ser estrangeiro, de representar pretensos interesses externos as revelações que está fazendo. Os seguidores de um presidente que bate continência para a bandeira americana se fazem de nacionalistas. O anticomunismo doentio os leva a achar que a Rússia estaria por trás dos vazamentos, esquecendo que a Rússia nada mais tem de comunista, que Putin é um ditador tão deplorável quanto a figura que eles cultuam, que ao associarem o que chamam de tentativa de desmoralizar a Lava Jato a uma ação antiamericana, de esquerda, estão assumindo que a Farsa a Jato serve aos interesses americanos e da direita.

Quem mais contribuiu para desmoralizar a Lava a Jato foi a falta de escrúpulos de seus integrantes, a sensação de que tudo podiam, que estavam acima do bem e do mal, que podiam violar as leis e a Constituição porque, pretensamente, estavam combatendo a corrupção, que esse fato autorizava e legitimava cometer todo tipo de desmando. O episódio em que os procuradores da Farsa a Jato, sem comunicar as autoridades a que eram subordinadas, celebraram acordos com empresas para ressarcimento dos prejuízos causados ao Estado brasileiro, pretendendo formar um fundo administrado pelos próprios procuradores, com claros fins políticos e pessoais, só explicita que a Farsa a Jato passou de uma operação de combate à corrupção, para ser um foco, ela mesma, de corrupção e de arbitrariedade. O moralista Dallagnol, o religioso autor do vergonhoso powerpoint contra Lula, que não se fez presente em uma audiência sequer em que suas testemunhas de defesa foram ouvidas, mostrando a sua disposição de pedir sua condenação independente das provas e testemunhos de inocência que apresentasse, foi flagrado montando um fundo com dinheiro público, para fins que só ele pode revelar. É essa gente que quer dar lição de moral, que quer aparecer como paladino da moralidade pública, como sendo os que detém a posse privativa da moral e dos bons costumes. A operação Farsa a Jato está se desmascarando e, com ela, o falso moralismo da direita que só queria o poder, mesmo que para isso precisasse cometer todo tipo de imoralidade, tudo em nome da moralização do país. Farsantes, isso é que são!

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