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"O reacionário quer ser o mestre da história". Entrevista com Mark Lilla

Em Esprit de réaction (Espírito de reação, Desclée de Brouwer), o cientista político norte-americano Mark Lilla se pergunta por que a nostalgia está experimentando um reavivamento entre os dirigentes populistas.

A entrevista é de Pascale Tournier, publicada por La Vie, 11-09-2019. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Por que você se interessou pela figura do reacionário?

Eu sou como um cachorro que rói seu osso. E de livro em livro, meu osso consiste em explorar, do ponto de vista da história das ideias políticas, a rejeição da razão, da ciência e da modernidade, que está intimamente ligada à reação. Essas ideias vêm da Europa, mas se difundem amplamente nos Estados Unidos. Hoje, existem muitos pequenos "Oswald Spengler" – (Nota de La Vie: filósofo alemão (1880-1936) autor de A Decadência do Ocidente. São Paulo: Zahar, 1973) que publicam manifestos reacionários de 600 páginas na internet, com a ambição de propor uma história decadentista do mundo.

Como exatamente você define um reacionário?

A palavra reação tende a se impor com Newton e sua visão da física: cada ação causa uma reação. Com a Revolução Francesa, nasceram novos grandes relatos modernos da história que giravam em torno deste evento. O par revolução/reação adorna-se com uma cor moral. Ser revolucionário é positivo, ser reacionário é negativo. A Revolução começa a ser passada ao crivo da crítica no século XIX, por Tocqueville, mas também por Dostoiévski, que desenha um retrato impressionante da psicologia dos revolucionários. Mas é a partir do comunismo soviético que os ataques são mais agudos, com os trabalhos de George Orwell, Arthur Koestler, Raymond AronIsaiah Berlin e outros.

Em que consiste o termo antitético do revolucionário?

Desde que o relato histórico dos revolucionários se impôs na sociedade, até os intelectuais antirrevolucionários aceitaram os parâmetros deste relato. O reacionário e o revolucionário consideram que a história não é contínua, que não há progresso progressivo nem decadência progressista. A história é pontuada de momentos apocalípticos, de kairós (“crise” no grego antigo). Existem efeitos de mudança, lacunas aparecem. Elas são anunciadoras de uma bela história para os revolucionários e, ao contrário, de períodos de exílio para os reacionários, a quem também chamo de náufragos do tempo. Para avançar, o revolucionário não tem escolha a não ser continuar a revolução. O reacionário tem duas opções: ele pode voltar ao passado ou pular o presente para estabelecer uma nova ordem, muito mais poderosa e autoritária. Os fascistas são reacionários do segundo tipo.

Quem hoje pode ser qualificado como de espírito reacionário?

Podemos citar o presidente turco Recep Tayyip Erdogan, o primeiro ministro indiano Narendra Modi, o presidente brasileiro Jair Bolsanaro, o presidente húngaro Viktor Orban... A lista está crescendo dia a dia.

Eles são realmente reacionários? Eles não instrumentalizam o mito de uma era de ouro para fundamentar o seu poder?

Para seu país, Erdogan tem um relato islâmico em mente. Ele reativa o imaginário em torno do grande sultanato. Modi é influenciado pela ideologia hindutva, nascida na década de 1920, que se caracteriza por uma atitude hostil a qualquer religião que não seja o hinduísmo, e Bolsonaro está obcecado por 1964, data do estabelecimento da ditadura brasileira. Para ele, era o paraíso!

Por que você não cita Donald Trump?

Ele encarna a pura ambição; mas não oferece nenhum relato da história. Ele não tem nenhum. Por outro lado, os reacionários que estão na Casa Branca ou nos canais de TV fornecem isso para ele. Eles viram, em sua chegada ao poder, o momento de implantá-lo. A Fox News, originalmente conservadora, tornou-se muito reacionária. Para alguns apresentadores, a queda dos Estados Unidos começou ou em 1968, ou na década de 1930 com a presidência de Roosevelt, ou mesmo no início do século XX com Wilson (presidente de 1913 a 1921), que defendia o desenvolvimento da burocracia moderna para maior eficiência, mas que resultou no domínio de uma elite urbana e educada sobre as pessoas comuns.

A nostalgia política não é nova. Como você explica sua intensidade atual? Ela está ligada à crise do progresso, ao mal-estar das democracias, ao empobrecimento das classes médias?

O presente tornou-se ilegível. As ideologias de esquerda e de direita não previram a nossa situação econômica, nem a articulação entre a economia mundial e a soberania nacional. É difícil controlar essas forças. Grandes e rápidas mudanças desestabilizam as consciências. Nós vivemos em uma sociedade fluida, como teorizou o sociólogo Zygmunt Bauman (1925-2017). A economia, as tecnologias, a família, a sexualidade, tudo está se movendo. Ninguém encontrou uma base de apoio para explicar as ligações entre esses fenômenos.

Quando o presente se torna ilegível, o futuro se torna imprevisível. Como dizia Rousseau, as pessoas preferem acreditar em algo errado do que não acreditar em nada. Somos seres que sempre querem acreditar para compreender o nosso ambiente. Isso abre caminho para todos os ambiciosos e seus contos de fadas sobre a história.

Na França, a palavra conservador é preferida à de reacionário. Ambos os conceitos têm o mesmo significado?

Existem duas tradições paralelas no pensamento político moderno: a disputa entre os liberais e os conservadores, que gira em torno da natureza humana, e a relação entre o indivíduo e a sociedade. A história não se resume a essa oposição, ao contrário do par revolucionário/reacionário. O reacionário quer ser o mestre da história, o que nunca é fácil!

Ao lado do reacionário de direita está surgindo também um reacionário de esquerda. Faz parte das correntes da colapsologia, isto é, do medo do colapso do planeta...

ecologia oferece um bom exemplo da distinção entre conservadores e reacionários. A abordagem conservadora da ecologia é querer preservar a nossa herança e transmiti-la aos nossos filhos. Trata-se de mudar os nossos comportamentos, as tecnologias. Para os defensores da ecologia radical, trata-se de mudar profundamente os seres humanos, decaídos desde a Era do Iluminismo, do capitalismo industrial, do individualismo e assim por diante. A sucessão de crises ecológicas mostra, segundo eles, que a nossa espécie seguiu o caminho errado na história. Portanto, devemos nos arrepender, confessar nossos pecados e nos tornar homens novos.

O espírito de reação parece se encaixar bem com o religioso...

A estrutura dos imaginários da história dos reacionários e dos revolucionários assemelha-se à do cristianismo. O bispo Eusébio deCesareia (século IV) foi o primeiro a propor uma visão da "história do Evangelho" separada em duas pelo evento messiânico, criando duas épocas diferentes nas relações entre o divino e o humano. Os reacionáriose os revolucionários modernos secularizaram esse imaginário histórico: a história não é contínua, houve – ou haverá – uma lacuna que nos separa do mundo antigo. Para os reacionários, a modernidade é um evento muito negativo que precisa ser revertido ou superado. Trata-se de ver como a história preparou esse momento ou não, para melhor mudar o curso dos acontecimentos. Os conservadores católicos acreditam que estamos passando por um momento ruim da história e que pode ser necessário retirar-se até que passe, como descreve Rod Dreher em A Opção Beneditina. Uma estratégia para cristãos no mundo pós-cristão (Campinas, SP: Ecclesiae, 2018).

Essa corrente de pensamento não atingiu seu apogeu? Populistas como Matteo Salvini e Boris Johnson estão encontrando dificuldades...

Salvini não é um intelectual. Ele não oferece um relato, mas ele canaliza atrás de si intelectuais. Eles se apoiam nos escritos do filósofo Julius Evola (Nota de La Vie: 1898-1974, teórico antimoderno cujo pensamento repousa sobre uma tradição “ario-nórdica”), abundantemente traduzidos. Na França, podemos citar Renaud Camus. O espírito reacionário não se desenrola através das pessoas, mas representa antes um espaço, ocupado não por alguns grandes intelectuais, mas por literatos, consumidores de ideias. Eles não produzem nada. Todas as ideias já existem há muito tempo. Na França, de Joseph de Maistre (1753-1821) a Charles Maurras (1868-1952), a tradição é antiga. Basta tocar.

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fonte: http://www.ihu.unisinos.br/592568-o-reacionario-quer-ser-o-mestre-da-historia-entrevista-com-mark-lilla

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