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Boris Vargaftig: Meta de criacionistas pode ser ensino religioso em escolas públicas

Boris Vargaftig: Meta de criacionistas pode ser ensino religioso em escolas públicas

 

Uma pergunta assola o mundo: de onde viemos?

A resposta do novo presidente da CAPES

por Boris Vargaftig*

 

Pretendia eu inaugurar este blog tratando de política cultural, marcada pela demissão de Roberto Alvim da Secretaria Especial da Cultura, após os protestos contra seu posicionamento público nazista.

Ele copiara, em apoio ao seu projeto dito cultural, boa parte de uma declaração de princípios de Joseph Goebbels, Ministro da Cultura e Propaganda de Hitler.

Confirmava assim a reiterada acusação de que o programa cultural que planejava o atual governo tem, entre seus proponentes, adeptos da ideologia de ódio, racismo e assassinato em massa, que provocou a 2ª. Guerra mundial.

Preferi entretanto comentar as declarações de Benedito Magalhães Aguiar Neto, novo presidente da Coordenação do Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

Em nome do chamado criacionismo, promovido por gurus como Olavo de Carvalho e lobbies reacionários americanos, Benedito Magalhães se opôs publicamente à teoria da evolução construída ao longo dos anos por milhares de cientistas.

Sim, isso, mesmo. O evolucionismo se baseia em pesquisas científicas, envolvendo diferentes disciplinas, paleontologia, geologia, anatomia comparada, bioquímica, genética molecular etc.

Já o criacionismo se baseia na fé e descreve a criação divina descrita na bíblia, considerada um livro revelado,  portanto imutável.

Porém, em 1872, numa reunião científica em Londres, o paleontólogo britânico Smith relatou a descoberta que havia feito na Mesopotâmia:  tábuas muito anteriores à Bíblia, descrevendo o dilúvio em termos idênticos aos da Bíblia.

Em consequência, a Bíblia passou assim a ser um livro histórico, sujeito ao estudo científico e não mais um livro revelado.

Aliás, outras culturas relatam versões divergentes do criacionismo em suas mitologias.

Como o conceito de evolução geológica e biológica está firmemente estabelecido, a tática de seus adversários, em geral influenciados ou dirigidos por “ideias” [sic] e políticas de extrema direita, consiste hoje em dissociar o criacionismo da extrema-direita e do fundamentalismo religioso, mudando seu nome para Desenho Inteligente (Intelligent Design – ID), mas mantendo intacta e acentuando a suposta divergência.

Sem a menor prova experimental ou de observação, e os evolucionistas possuem centenas, pretendem os criacionistas que os organismos são complicados demais para terem evoluído “sozinhos”.

Assim, um relojoeiro poderoso, Deus, é claro, é indispensável!

Nisto nada de original, copiam os argumentos de seus inspiradores norte-americanos.

Não apresentam a menor explicação plausível, inclusive para a chamada “complexidade”: porque o suposto autor do ID faria tão complexas e frágeis as estruturas dos seres vivos?

Dão o exemplo dos olhos dos mamíferos, que associam estruturas de origens embrionárias diversas e que se conjugaram, ao sabor das pressões da evolução, para formarem o órgão da visão.

O argumento é interessante e permite, à primeira vista, atribuir um objetivo “finalista” à chamada criação.

Embriologistas mostraram entretanto, a evolução de manchas luminosas em seres primitivos e a complexidade do olho do mamífero.

Uma “teoria” não é simplesmente uma hipótese, e sim uma construção lógica, baseada em observações e experiências que, globalmente, levam a conclusões compatíveis e que explicam, ao menos em parte, a realidade.

A “teoria” evolui obrigatoriamente, pois a interpretação dos fatos muda com novas experiências e observações.

Assim, a chamada “teoria” da evolução contém variantes importantes, tendo a biologia fundamental evoluído extraordinariamente nos últimos anos.

Mudanças são bem-vindas, o que é inaceitável é o dogmatismo, pretender veracidade, em nome de crenças desprovidas de lógica científica.

Crer no diabo, por exemplo, encarnado numa pessoa particularmente maldosa, ou num animal, como um gato preto, é uma crença proposta ou imposta sem prova.

Crenças no passado eram as únicas explicações para os fenômenos naturais. O termo “teoria” é dado, em outros terrenos científicos, como “teoria atômica” ou “teoria gravitacional” – explicações globais para fenômenos complexos e ninguém contesta.

Assim o criacionismo, para se alçar, embora de forma capenga, à posição de alternativa às teorias da evolução, vestiu-se de nova/velha roupagem, o ID.

Seu posicionamento não se baseia em experiência ou em observação comprobatória, mas em adaptações de preceitos bíblicos, como cálculos da idade da terra baseados em “informações da Sagrada Escritura”.

Assim, até o século XVIII, pensava-se que as espécies criadas haviam escapado ao dilúvio na Arca de Noé e que desde então viviam imutáveis e perfeitas.

Em 1872, o paleontólogo inglês Smith relatou, numa reunião cientifica em Londres, a descoberta na Mesopotâmia de tábuas muito anteriores à Bíblia, que descrevem o Dilúvio em termos idênticos aos seus. A Bíblia deixa de ser um livro revelado, passa a ser um livro histórico.

Os criacionistas brasileiros do ID copiam o modelo americano, denunciado por biologistas em inúmeras ocasiões (Coyne, 2020).

Como nos Estados Unidos, vê-se que esta campanha é eminentemente política, além de seu aspecto obscurantista, do estilo “a terra é plana”.

A partir do momento em que conseguissem uma mínima respeitabilidade científica, estariam abertas as portas para, em nome da “liberdade de ensino”, introduzirem o criacionismo nos currículos escolares e nos manuais de ensino.

A chamada “Escola sem partido” estaria consagrada, pois a banalização de outras maluquices poderia seguir o criacionismo e, diretamente, a introdução do ensino religioso nas escolas públicas.

Vê-se claramente que um problema científico básico, que suscita legitimo debate, tem consequências ideológicas graves.

Ele reproduz num nível incomparavelmente mais elevado as disputas entre o racionalismo burguês do iluminismo e do século XIX, e o obscurantismo dos contra revolucionários que continua presente e agressivo.

Veremos mais tarde esta história.

(continua)

Referências

GUIMARAES, Maria. Teoria em movimento, Pesquisa – FAPESP: 27. pp. 46, SP: 2018.

http://revistaquestaodeciencia.com.br/apocalipse-now/2020/01/25/design-inteligente-e-mais-do-que-pseudociencia-e-estrategia-politica

*Boris Vargaftig é médico farmacologista, professor titular aposentado da USP

 

fonte: https://www.viomundo.com.br/boris/boris-vargaftig-de-onde-viemos-a-resposta-obscurantista-do-novo-presidente-da-capes.html

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