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Globalização, um disfarce para o “internacionalismo” imperialista

A acumulação capitalista impõe a globalização do sistema capitalista e a crise só será superada com a luta dos trabalhadores

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Trabalho escravo e sequestro de crianças e jovens no Congo sustentam celulares baratos no mundo. | Foto: Reprodução

Um dos debates permanentes nesse processo de pandemia do Covid-19 é como será o mundo depois que a pandemia passar ou pelo menos depois que ela se reduzir. Fala-se de tudo. Da esquerda à extrema-direita cada um dá palpite. Entre esses palpites aparece a possibilidade de um capitalismo não globalizado, ou mesmo de um capitalismo mais humanizado e até se retorna ao conceito que o socialista André Gorz (ou Michel Bosquet) desenvolveu na década de 1970 de “decrescimento”. Em qualquer dos casos, não é a pandemia que está em jogo, é o capitalismo, em sua crise profunda que recoloca velhas questões.

A prêmio Nobel de economia, Esther Duflo, declarou que não vê racionalidade econômica em se falar em desglobalização , “ao contrário, com a crise descobrimos que somos interconectados e interdependentes” (Valor, 17/7/20). Na verdade, uma das características do capitalismo, desde sua origem, é a necessidade de ser internacional, de ampliar suas fronteiras e seu poder sobre tudo e todos, em transformar tudo em mercadoria e capital. Este é o segredo da fome voraz do capital, que precisa se ampliar para existir e continuar existindo.

As reações ao domínio absoluto do capitalismo monopolista na era imperialista se expressam nas discussões sobre período do pós pandemia em função dos interesses de classe que as pessoas têm, muito mais do que a partir de uma análise científica do sistema econômico em si e sua dinâmica de crises periódicas e cíclicas e das tendências da história.

Em toda crise capitalista está colocada a possibilidade de sua superação. E isso ocorre não é de agora, mas desde que esse sistema se tornou maduro e expôs suas contradições. Contudo, não existe a possibilidade de uma superação automática e mecânica de um sistema econômico. Isso deve ser obra dos homens e mulheres. Obra da política.

A pandemia em si não produz alteração no quadro econômico mundial, sequer nacional. Ela pode, em alguns casos, servir como uma lente para que os míopes possam ver com mais clareza as contradições do capital e os rumos que o mudo tem tomado. A exagerada concentração renda não é obra dos últimos anos. É parte do processo de acumulação e desenvolvimento do capital. A interdependência entre as cadeias produtivas é um fenômeno que está presente no mundo capitalista há alguns séculos. A exploração das maiorias e a transformação de todos em trabalhadores assalariados e em desempregados é característica histórica do sistema. O que diferencia uma etapa de outra do sistema capitalista não são esses fenômenos. Mas sim como o capital se organiza e subordina tudo ao seu redor. O capitalismo comercial, o capitalismo industrial e o capitalismo financeiro, a fase imperialista atual, são etapas que caracterizaram a forma da dinâmica de acumulação do capital na exploração do trabalho e da natureza.

Na explosão dos conflitos do capital não há espaço para reformismos. Ao contrário, as ideias de humanização do capitalismo ou de sua reforma para o bem de todos só prospera nos momentos de refluxo da luta de classes e de certa capacidade do sistema em distribuir riquezas para algumas classes, mesmo que mantendo a superexploração de outras ou de colônias. Nos momentos de crise do capitalismo, essas ideias aparecem ou são retomadas como meio de dividir a luta dos trabalhadores, produzir entraves à organização revolucionária ou tentar atrasá-la.

Não há sentido algum, científico, material ou econômico em se convencer o capital monopolista e suas gigantescas empresas de que a vida bucólica e o desinvestimento salvará a humanidade da crise ambiental ou social. A lógica do sistema jamais deixará de colocar essas questões em debate nos fóruns diplomáticos, enquanto as empresas escolherão os meios mais lucrativos e rápidos de acumular.

Por exemplo, enquanto a Apple difunde publicidades e ideias de que é uma empresa ecológica, humana e quase uma hippie do paz e amor fraternal, seus produtos foram um dos primeiros a ser produzidos na China por empresas que mantinham a lucratividade da Apple por conta dos baixíssimos salários dos montadores de celulares e computadores. E mais ainda, tanto a Apple quanto as demais empresas de tecnologia deram saltos tecnológicos nas últimas décadas com a incorporação de metais raros que são extraídos de minas por escravos ou jovens sequestrados por milícias controladas por chefes tribais, como o caso das minas de cobalto da República Democrática do Congo. O iPhone tem sangue de escravos, mas as propagandas seduzem os jovens burgueses com ideais social-democráticos.

Metais raros extraídos de minas africanas estão em todos os produtos de consumo de alta tecnologia, mas a exploração do trabalho ao extremo está também nas roupas produzidas na Índia, Malásia, Tailândia, Filipinas, ou por escravos bolivianos em São Paulo.

Essa lógica não será alterada por seminários para debater a desglobalização, mas somente pela luta dos trabalhadores para assumir o controle dos meios de produção.

 

fonte: https://www.causaoperaria.org.br/globalizacao-um-disfarce-para-o-internacionalismo-imperialista/

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