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Não vale enfrentar Bolsonaro e esquecer neoliberalismo

Paulo Guedes arrebanhou eleitores para o capitão, afirmando que pisaria no acelerador das contrarreformas iniciadas por Michel Temer. Agora, os mesmos liberais “civilizados” pulam do barco. Estariam mesmo interessados em democracia?

OUTRASPALAVRAS

Publicado 10/08/2020 às 18:33

Por Gustavo Barbosa

Em fevereiro de 1848, uma aliança entre a burguesia e o operariado francês derrubou o reinado do rei Luís Felipe. No anos anteriores, a partir da revolução de 1789, a França pulou do regime absolutista ao republicano, passando pela monarquia parlamentar e chegando inclusive a assumir a forma de império sob Napoleão. Luís Felipe, conhecido como o “rei banqueiro”, sentiu na pele como, apesar dos esforços em reabilitar o absolutismo por parte do consórcio formado por Prússia, Áustria e Rússia, o espírito revolucionário ainda rondava a França.

Com o passar dos meses, foi ficando claro que os interesses dos grupos que o destronaram eram inconciliáveis. Em razão da conquista via baionetas, o proletariado proclamou o novo regime como República Social, reconhecendo, dentre outras coisas, o direito ao sufrágio universal. Mas o fim do voto censitário era apenas uma das muitas demandas que deixaram as facções burguesas descontentes. Os rumos que a França tomaria dependeria da queda de braço entre a burguesia e classe trabalhadora, que, obviamente, não se calou diante das investidas por parte da Assembleia Nacional Constituinte instituída após a queda da monarquia.

A Insurreição de Junho foi o primeiro grande confronto entre burguesia e proletariado, cujo massacre – com milhares de mortos e outros milhares de trabalhadores deportados sem direito à defesa — selou o destino da classe trabalhadora, fazendo com que, naquele momento, a burguesia tivesse o controle político da França.

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Meio às disputas entre facções burguesas, Luís Bonaparte, sobrinho de Napoleão, foi eleito presidente da República em dezembro de 1848. No final de 1852, deu um golpe e restaurou a monarquia, movimento antecipado por Marx em “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”. O pensador alemão explica como, nas formas democráticas liberais, importam menos a pessoa que governa e mais as estruturas e mecanismos de reprodução do capital. Luís Bonaparte, longe de ser burguês, foi, naquelas circunstâncias, a aposta de parcelas da burguesia para administrar o Estado e manter os níveis de acumulação que julgavam adequados.

Marx escreveu que “assim como na vida privada se costuma diferenciar entre o que uma pessoa pensa e diz de si mesmo e o que ela realmente é e faz, nas lutas históricas deve-se diferenciar tanto mais as fraseologias e ilusões nutridas pelos partidos do seu verdadeiro organismo e dos seus reais interesses”. A tomada do poder por Napoleão III representou um avanço autoritário da revolução republicana de fevereiro de 1848. Junho foi o marco definitivo de antagonismos que, por sua própria essência, não podiam andar de mãos dadas para além da esquina. No entanto, a lição de que aliança pontual e estratégica é diferente de aliança programática parece ainda não ter sido muito bem assimilada por alguns setores da esquerda.

Durante a campanha de 2018, Paulo Guedes afirmou que pretendia dar continuidade ao que Michel Temer vinha fazendo. Com uma pequena diferença, porém: pisaria ainda mais fundo no acelerador. Amplos segmentos do empresariado pularam sem qualquer vergonha no barco do bolsonarismo. Arregimentados por Guedes e inspirados por seu selo de confiança, viram no ex-capitão o trunfo para derrotar o PT, na esperança que a rapina prosseguiria sem maiores percalços.

Na mesma semana em que o rei Luís Felipe caiu, Marx e Engels publicaram o Manifesto do Partido Comunista. Na parte em que dedicam ao “socialismo conservador ou burguês”, descrevem suas finalidades como voltadas a promover reformas “que nada alteram na relação capital e trabalho assalariado, mas, no melhor dos casos, reduzem para a burguesia o ônus de sua dominação”. Nesse contexto, até o livre mercado passa a ser defendido como interesse da classe trabalhadora.

Vê-se que sobram razões para desconfiar da construção de frentes que demonizam a figura de Bolsonaro mas se alinham espiritualmente ao programa neoliberal de seu governo. Manifestos que não mencionam a precarização das condições de vida dos trabalhadores, impiedosamente açoitados por reformas como a trabalhista e a da Previdência e por políticas de austeridade, sinalizam que, para seus idealizadores, algo precisa mudar para que tudo permaneça piorando. E esta mudança pode ocorrer por meio da domesticação de Bolsonaro a curto prazo ou de uma alternativa à direita a médio. Na essência, o propósito do mandatário e de tais coletivos é o mesmo, apesar da sofisticada e elegante defesa da democracia que FHC – para quem Bolsonaro merece mais tolerância — e a direita civilizada conseguem fazer.

Assim, estratégias de enfrentamento real ao bolsonarismo devem considerar ao menos dois fatores: o primeiro, de que as possibilidades de conciliação de classes, tão presentes nos governos petistas, se exauriram há tempos; o segundo, de que a pessoa física de Bolsonaro é um problema secundário diante das políticas ultraliberais do seu governo. Na reação à engatinhante rede de proteção social estabelecida pela Constituição de 1988, todos os gatos são pardos, o que lhes permite recitar seus lugares-comuns sob a proteção da noite, explica Marx. Por outro lado, foi à luz do dia que, em junho de 1848, na resistência do operariado francês, despontou a bandeira vermelha como símbolo de toda uma classe.

Lições que permanecem atuais se realmente desejamos conter a barbárie.

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